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29/04/2006
Número - 474
ARQUIVO
LUCIANO PIRES
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Luciano Pires
NÃO É "POBREMA" MEU
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Dias atrás foi inaugurado o Museu da Língua Portuguesa, nas instalações da
Estação da Luz, em São Paulo. Imagine só, um museu dedicado à língua
portuguesa...
Nossa língua é um patrimônio que a sociedade materialista trata com
descaso, pois não tem valor aparente. Qualquer um fala. Não dá pra vender.
Não dá pra alugar. Nem dá pra emprestar. E nem é preciso dar muita atenção
a ela, pois mesmo falando errado nos fazemos compreender.
Não entendeu? "O pobrema" é seu. O ministro fala errado? Não é "pobrema"
meu...
Será que nossa língua merecia um museu? E logo aqui no Brasil, onde coisas
importantes são deixadas de lado?
A resposta me parece óbvia: merece e merecia muito antes...
Qualquer investimento focado em educação e cultura é primordial para este
país de brucutus, que só consegue investir naquilo que enxerga. Ou que
traz resultados imediatos. Mas... Será que o povo merece? Tenho minhas
dúvidas.
Acho que, para ter valor, um museu que trata do idioma só tem sentido num
país onde o povo tenha um mínimo de educação para entender e respeitar o
que está visitando. Coisa que a maioria dos brasileiros não tem. E nessa
maioria incluo gente com formação, gente rica, gente pobre, brancos,
negros, amarelos, homens, mulheres, gays, heteros e tudo o que você quiser
citar. A ignorância não é privilégio de um grupo. Está disseminada por
toda a sociedade, com variações de grau. Mas presente.
Pois bem.
Estou indignado. Acabo de ler que o Museu da Língua Portuguesa foi fechado
para manutenção, poucos dias após a inauguração. Puxa, será que estourou
um cano d´água? Rachou o gesso do teto? Uma pane elétrica? Não.
A manutenção é para consertar o estrago que os visitantes fizeram, pisando
onde não deviam. Arrancando partes de algumas obras. Sujando outras...
A manutenção se dá em razão do desleixo. Ou será da depredação?
E então? Será que as pessoas que visitam o museu, merecem o museu? Ah, mas
quem depreda é uma minoria, dirão os mais apressados. É verdade... Mas e a
maioria que vê a minoria depredando e se finge de morta?
- Não é "pobrema" meu!
Essa é a verdade de nossos dias: perdemos a capacidade de indignação. Ou
de expressar nossa indignação. O sujeito fura a fila e eu fico quieto. O
outro quebra o orelhão e eu fico quieto. Não é "pobrema" meu... E se eu
falar alguma coisa sou capaz de ser vaiado pela maioria dos que preferem
não se manifestar. Vão me chamar de estressado, de neurastênico... E se
bobear ainda tomo um tiro do vagabundo.
Pois é...
E se fico quieto com as pequenas coisas que me atingem diretamente, você
acha que vou gritar por causa de um deputado desonesto? Contra a fila de
aposentados? Contra a baixaria na televisão?
Eu não. Não é "pobrema" meu...
Pois assim que reabrir, vou visitar o museu.
Quero ver se tem lá a palavra "burro".
(29 de abril/2006)
CooJornal no 474
Luciano Pires é jornalista, escritor,
conferencista e cartunista.
luciano@lucianopires.com.br
www.lucianopires.com.br
SP
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