|

13/05/2006
Número - 476
ARQUIVO
LUCIANO PIRES
|
Trimmm
- Alô.
- Alô. Quem está falando?
- É o Tom.
- Ô Tom, aqui é o Zé. Que voz é essa?
- É uma gripe que me pegou... Tudo bem, Zé?
- Mais ou menos. Fazer interurbano daqui é um horror... Tem que pedir pra
telefonista e ela não me entende direito. Mas deixa pra lá. Escuta, eu
disse que ia dar merda, não disse?
- Como assim?
- O lance dos caras querendo tomar nossas instalações e investimentos. A
gente não pode confiar nessa gentinha que fala essa língua confusa, vive
de forma confusa. Tudo aqui é improvisado, pô.
- Mas ganhamos dinheiro, né? Como nunca!
- Eu sei! Mas não gosto de fazer negócio com gente assim. Ô povinho. Eu
sempre tive medo que eles metessem a mão nas nossas propriedades. E até o
Chavez se meteu no negócio!
- Latinos, meu caro, latinos e vizinhos... mas quando o presidente assumiu
o poder nos braços do povo, fez um monte de promessas. Havia o risco de
que ele as cumprisse.
- É. Eu sei. Mas é que essa turma nunca é de cumprir as promessas...
- Risco, meu amigo, risco. Os caras têm apelo popular.
- Pode ser, mas se não fosse por nós, eles não teriam tecnologia nem
recursos para explorar toda essa riqueza que eles têm no solo.
- Também acho. Nossos técnicos é que ensinaram os deles. Mas isso, só,
nunca deu segurança para ninguém.
- E os contratos? Tem leis globais que todo mundo tem de respeitar. E eles
não respeitam! Agora resolveram pegar tudo pra eles! E o monte de dinheiro
que investimos lá? Vão nos ressarcir?
- Ah, eu acho que não.
- Mas tem contratos, pô!
- É. Mas a questão lá não é relacionada a negócios. É ideológica.
- Como assim?
- Os caras vão quebrar os contratos por uma questão de ideologia e não de
desrespeito às leis... Eles têm que dar uma satisfação para o povo. Vêm
eleições aí.
- É... O que esperar de um presidente que fica falando bobagens por onde
passa? Por onde vai fica colocando aquelas roupas ridículas. Esta semana
recebeu uns índios lá no gabinete. E se vestiu de índio!
- Isso é típico, meu caro. E o povo adora. É um deles que está lá...
- Pois eu acho que a gente devia era jogar duro.
- Como assim?
- Ah, usar nosso poder econômico e boicotar os caras. Garanto que eles vão
ficar mansinhos, mansinhos. Ou então comprar todo mundo lá. Lembra daquele
ministro que era "funcionário" nosso?
- Lembro... Mas ainda acho que a maior parte da culpa é nossa.
- Nossa? Mas como?
- A gente não construiu uma rede de relacionamentos forte. Compramos. Só
quisemos tirar lucro, lucro, lucro. Não devolvemos para a comunidade parte
do que ganhamos com ela. Em volta das nossas instalações é um miserê só...
Por isso nos odeiam.
- Como assim, odeiam? Nós somos amados! Somos o grande irmão! Somos quem
mais compra deles! Sem nós eles estão quebrados!
- Não nego nossa importância econômica. Mas estamos longe de ser amados.
Somos suportados. O tempo todo fomos exploradores e compramos o apoio dos
políticos. Sabíamos do risco de quebrar a cara. Por isso fizemos questão
de ganhar tanto! Nenhum acionista reclamou enquanto estivemos lá... Mas
fique frio. Logo as eleições passam e voltamos a ficar de bem.
- Você ta certo. Mas a gente tinha que tomar mais cuidado com essa gente.
Eu por mim comprava logo a Bolívia inteira e mandava o Evo embora.
- Bolívia?... Evo?
- ... É... Bolívia... Evo Morales... O gás da Petrobras.
- Bolívia? Petrobras? Mas eu to falando é do Brasil, do Lula e de nossas
patentes de remédios feitos com plantas da Amazônia.
- Brasil? Amazônia? Mas quem é que está falando? Não é o Tom Henrique do
Ministério, em Brasília?
- Não. Aqui é o Tom Smith, dos laboratórios Klint Health International em
Miami.
- Desculpa. Foi engano..
Click.
(13 de maio/2006)
CooJornal no 476
Luciano Pires é jornalista, escritor,
conferencista e cartunista.
luciano@lucianopires.com.br
www.lucianopires.com.br
SP
|
|