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23/02/2008
Ano 11 - Número 569

ARQUIVO
LUCIANO PIRES |
Luciano Pires
SENHOR TEMPO
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Durante uma de minhas palestras um grupo de jovens perguntou sobre
fórmulas para construir uma carreira de sucesso. Eles viam em mim um
executivo de uma multinacional, um sujeito que fala em público com
facilidade, um escritor, um radialista, enfim, e queriam descobrir o que
fiz e como fiz para chegar até ali.
Cada um tem sua história de vida e já está mais do que provado que duas
pessoas parecidas, por mais similares os ambientes onde cresceram e foram
educadas, acabam encontrando diferentes caminhos na vida. Fórmulas não
existem. Existem métodos, existem processos, existem dicas. Sabe aquelas
coisinhas que a gente aprende quebrando a cara?
E uma das coisas que mais gosto de dizer - para decepção da garotada - é
que um dos atributos mais importantes para explicar o sucesso que as
pessoas obtêm em suas carreiras é muito comum e todo mundo tem em igual
intensidade: o tempo.
Meus jovens interlocutores tinham mais vigor físico, mais velocidade, mais
ânimo, mais beleza, mais capacidade de aprender do que eu. Mas eu tenho
mais tempo de vida...
Aquele executivo que falava para eles é produto de meio século de
experiências, de tentativas e erros. Está por aqui desde a metade dos anos
cinqüenta. Planta desde os 16 anos de idade. E por isso colhe. Qualquer
garotão de trinta anos pode ter mais cursos, mais empregos, mais
namoradas, mais filhos, mais viagens do que eu. Mas nunca terá mais tempo
de vida. E, acredite, isso faz diferença quando temos consciência de que a
passagem do tempo é um processo de aprendizado, de “polimento”.
Quem tem essa consciência trata o tempo como aliado.
O tempo adiciona à razão uma carga de emoção que só conseguimos equilibrar
quando chegamos à idade madura, lá pelos quarenta anos.
Num recente artigo da jornalista Maia Szalavitz na revista Psicology Today,
encontrei uma informação curiosa, pois sempre achei que seria o contrário:
pesquisas recentes demonstraram que quando um jovem é colocado diante de
uma decisão que envolve determinados riscos, como usar drogas para ganhar
massa muscular ou dirigir embriagado, usa certas regiões do córtex
cerebral, responsáveis pela razão. E sua análise racional determina muitas
vezes que os ganhos em estética corporal valem o risco das drogas. Ou que
a diversão naquela festa vale o risco da direção insegura.
Já os adultos usam regiões do cérebro mais ligadas à emoção. Pesam os prós
e os contras de forma racional e emocional e por mais que os ganhos sejam
atraentes é a decisão emocional que diz: não!
Nós, adultos, baseados na emoção, consideramos sempre o pior cenário.
- Nossa, pai, como você é trágico!
- Mãe, você acha que eu sempre vou me estrepar!
Nossos filhos consideram sempre o melhor cenário. Tudo vai dar certo, tudo
vai correr bem, tudo é tranqüilo. Eu sei. Fui um deles. Mas um dia o
Senhor Tempo me transformou em pai...
Infelizmente (ou felizmente) não há como apressar o tempo. É impossível
acelerar o amadurecimento do processo de tomada de decisão. São a prática
e a repetição que aperfeiçoam nosso processo de julgamento emotivo.
Senhor Tempo. Democrático senhor tempo! Homens ou mulheres, pretos ou
brancos, ricos ou pobres, todos têm a mesma quantidade. Não dá pra
emprestar. Não dá pra comprar. Não dá pra alugar. Só dá pra viver. A
diferença é o que cada um escolhe fazer com ele.
Terminei a palestra com uma frase de Charles Darwin que é mais um de meus
motes de vida:
“O homem que tem coragem de desperdiçar uma hora de seu tempo não
descobriu o valor da vida.”
(23 de fevereiro/2008)
CooJornal no 569
Luciano Pires
jornalista, escritor, conferencista e cartunista.
RJ
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