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LUIZ CARLOS GUEDES


Luiz Carlos Guedes
  


AS AMAZONAS: REALIDADE OU MITO
 

Um caso curioso da história da humanidade é o que trata das amazonas. Sobre elas recaem mais lendas do que realidade. Mesmo assim, depois de 26 séculos da época em que viveram estas temidas guerreiras, o Museu Cernuschi de Paris, em parceria com a prefeitura da cidade, inaugurou no último dia 10 a exposição "O ouro das amazonas".

Através de numerosos objetos encontrados, em sua maioria, em tumbas na região da Rússia caucasiana, os curadores abordaram este fascinante tema pela perspectiva mitológica e arqueológica. Na mostra, a mitologia aparece amplamente ilustrada através das cerâmicas gregas que refletem estes temas. Artistas ocidentais também estão presentes pois, de uma forma ou de outra, trabalharam este mesmo mito. É o caso dos quatro lenços de Claude Dernet (1588 - 1660), pintor da cidade lorena de Nancy, que em múltiplas ocasiões se inspirou nas histórias gregas. Peças raras como os detalhes do friso que adornava o Mausoléu de Halicarnaso, uma das sete maravilhas do mundo construído em 350 AC, que relata a bravura das amazonas, lá estão para serem admiradas.

O mito das amazonas se explica a partir do texto de Hipócrates. Segundo ele, as guerreiras eram excelentes ginetes que viviam nas estepes. Eram muito boas arqueiras e lançavam, em plena cavalgada, suas flechas certeiras. Relata Hipócrates que enquanto permaneciam solteiras guerreavam, e não se deixavam conquistar para o enlace das núpcias enquanto não houvessem matado pelo menos três inimigos. Desde pequenas, suas mães lhes cauterizavam o seio direito com uma barra de bronze quente para que diminuísse o volume, a fim de que todo o vigor e energia do seio passasse para o braço e ombro direito.

Uma outra face deste mito nos foi dado a conhecer através das histórias de Heródoto. Para ele, as amazonas haviam sido capturadas pelos gregos, que as transportaram para a Grécia continental em três barcos. Durante a travessia as prisioneiras se revoltaram e massacraram a tripulação. Inábeis na navegação, acabaram naufragando na Criméia. Ali se dedicaram a roubar os rebanhos do povo escita. O conselho dos sábios escitas decide, então, enviar os mais jovens e belos da tribo para conquistá-las através de desejos físicos e assim lograrem dominá-las. Conta Heródoto que conseguiram e, da união dos escitas e amazonas, surgiu a tribo que povoou o oeste do rio Thermodon até a Ásia Menor.

Além de sua importância artística e cultural, a exposição lança dúvidas mas também joga uma luz sobre o estado atual das investigações científicas com respeito à verdadeira existência das mulheres guerreiras. As peças provêm quase todas dos museus russos de Azov, Rostov e Krasnodar e também das escavações realizadas no sítio de Taganrog - que estava coberto pelas águas do delta do rio Don - antigo entreposto comercial grego descoberta por um banhista em 1935.

As ruínas das tumbas até agora descobertas, sem dúvida, revelam a existência de um ou vários povos nômades nos quais o matriarcado era, ao que tudo indica, a estrutura social predominante. As peças achadas em uma sepultura perto de Pestchany (século I AC) demonstram a importância da mulher nas sociedades que viviam às margens do mar de Azov. Nesta tumba encontraram-se, entre os pertences, anéis e braceletes de ouro e turquesa, armas e facas que demonstram o caráter belicoso destes povos. As jóias se destacam pelo referencial de seus desenhos que têem como motivo principal os cavalos, que de certa maneira colaboram com a tese de que as mulheres da tumba eram excelentes ginetes.

"O ouro das amazonas" é uma clara intenção de decifrar a incidência destes povos sobre as culturas que os sucederam, exibindo diferentes objetos decorativos e utensílios de tribos nômades do Cáucaso. Todos eles, povos guerreiros, dos quais descendem os cossacos russos da época moderna e em cujas cidades se encontraram a maioria das peças.

E tudo parece indicar que a tese mais acertada é a que explica como as amazonas, oferecendo resistência à colonização grega, ficaram sepultadas pela mitologia destes. As sacerdotisas se negavam a aceitar os deuses e mitos dos invasores. Não é sem razão que em muitas tumbas de sacerdotisas é possível achar atributos bélicos que eram símbolos do espírito rebelde destes povos do noroeste do Mar Negro. Os gregos acabaram impondo sua mitologia e adaptando a realidade histórica à sua própria necessidade.

Até o rio que levava seu nome - o Amazonas, no Brasil - é uma homenagem irônica no sentido da colonização. Ainda hoje, não ficam esquecidas a história das amazonas de Orellana. O mito das amazonas levou o imperador D. Pedro II a encarregar Gonçalves Dias de fazer uma pesquisa sobre a autenticidade ou não dos seguintes fatos: "quais os vestígios existentes no Brasil que possam provar uma civilização anterior à conquista dos portugueses"; "se existiram ou não amazonas no Brasil e, se existiram, quais as testemunhas de sua existência; quais seus costumes, usanças e crenças; se assemelhavam-se ou indicavam originarem-se das amazonas da Cítia e da Líbia; se não existiram, que motivos tiveram Orellana e Cristóvão da Cunha, seu fiador, para nos asseverarem a sua existência."

A resposta de Gonçalves Dias foi de extrema perspicácia: "É certo que esta tradição correu entre os indígenas do Amazonas, e correrá talvez por muito tempo; mas quanto a mim não fica explicado se foram os europeus que a receberam dos índios ou se, pelo contrário, como creio, foram eles que lha transmitiram."

De qualquer modo, a exposição do Museu Cernuschi não pretende dizer a última palavra. As estepes do norte do Cáucaso não revelaram ainda todos seus segredos. Os arqueólogos continuam buscando a tumba da grande rainha Hipólita - cujo cinturão é o motivo do nono trabalho de Hércules -, ou ainda vestígios de outras também famosas como Antíope, que lutou contra Teseu e perdeu; Pentesiléia que, no socorro a Tróia, depois de morta por Aquiles foi por ele, diante de sua beleza, chorada; Taléstris, que visitou Alexandre, e tantas e tantas outras.

Amazona segue, por enquanto, sendo sinônimo de rebeldia, ainda que o mundo material em que viveram aquelas guerreiras comece pouco a pouco a se revelar.


Referências:
release do museu Cernuschi, "O grande Amazonas" de João Mendonça de Souza - pg.153, "A vida de Gonçalves Dias" de Lúcia Miguel Pereira - pg. 235 e artigo de William Navarrete - Herald Tribune.


LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br