Fazendo um balanço. Podemos dizer que este século que terminou foi de Sartre (1905-1980)? Sem dúvida alguma, o filósofo e novelista, que morreu há 21 anos, foi durante muito tempo um dos principais pensadores franceses da segunda metade do século XX.
E foi este assunto, motivado pelo artigo do jornalista Daniel Bermond da revista "L'Historie y Lire", que veio á baila, ano passado, no café do Galeão (não aprovo o nome de Tom Jobim para o aeroporto internacional), quando do embarque de James Kemsley - presidente da Kemsley Publishing - depois de ter participado do congresso mundial de jornais realizado aqui no Rio de Janeiro.
Bermond dizia que para nos convencermos de sua importância e de sua atualidade bastaria tão somente consultar a abundante literatura e os numerosos artigos publicados pela imprensa - e não foi só na França - quando do aniversário de sua morte. Várias obras descrevem Sartre como aquele que representou a inteligência comprometida com as lutas da guerra fria e a descolonização, que já é motivo suficiente para colocá-lo no patamar em que se encontram suas obras.
Filósofo, novelista, dramaturgo, jornalista e diretor de revista, Sartre era um personagem curioso além de pouco agraciado fisicamente, mas tinha um encanto especial, que procedia do brilho de sua mente, de sua dialética inatacável e de sua generosidade.
Era louco por literatura, um trabalhador incansável que recorria aos mais potentes psicotrópicos para "lubrificar os neurônios" e pensar o mundo. "Uma máquina de produzir palavras" como ele mesmo se definia. E foi justamente sobre está paixão adquirida deste muito jovem, que trata o livro "As palavras" (1964), modelo autobiográfico considerado seu melhor escrito e admirado até pelos seus mais ferrenhos inimigos.
Mesmo assim, muitos insistem em afirmar que houve falhas tanto em seu discurso como em seu comportamento e que seu pensamento foi marcado por causas justas incontestáveis e se deixou levar por equívocos.
Durante o aniversário de sua morte, os livros que mais se destacaram em sua defesa - se é que ele precisa de defesa - foram os de Michel-Antoine Buenier "O adeus a Sartre", que procura, através de sua trajetória pessoal, reviver a história de toda uma geração de jovens dos anos 60 para a qual Sartre foi um diretor de consciências. "Três aventuras extraordinárias de Jean-Paul Sartre" de Oliver Wickers que narra três momentos chave da atividade literária na vida do filósofo: a redação dos Quatro Cadernos de Guerra (publicado entre 1983 e 1995) durante a chamada "guerra boba" - que foi um período da Segunda Guerra Mundial, anterior ao armistício franco-alemão (1940), durante o qual a França lutou contra a Alemanha - ; a época de As Palavras (1964) nos anos maduros; e o final de sua vida quando, quase cego, se dedicava a concluir O idiota da família (1971), volumoso e inacabado ensaio sobre o escritor francês do século XIX, Gustave Flaubert. E não poderia deixar de ser citado "A causa de Sartre", de Philippe Petit, sobre o pensamento e a vida política do escritor.
No entanto, o livro mais comentado e o foco da atenção da crítica foi o ensaio "O século de Sartre", de Bernard-Hernri Levy, filósofo também famoso e um tanto quanto controvertido, de quem se esperava, neste caso, uma obra polêmica.
Neste ponto, Daniel Bermond afirma que este volumoso livro se apresenta como uma "investigação filosófica" não se tratando portanto, no sentido estrito, de uma biografia. Não procura recuperar a trama da infância nem da juventude de Sartre que são apenas citadas. Nem sequer deu-se ao trabalho de ressuscitar os anos loucos do existencialismo logo depois da guerra, quando o fundador de "Os Tempos Modernos" presidia reuniões de escritores no Café de Flore junto com sua eterna cúmplice Simone de Beauvoir, em Saint-Germain-des-Prés (bairro parisiense cujos cafés se converteram, depois da segunda guerra, em ponto de encontro da geração existencialista que defende a doutrina filosófica segundo a qual o homem não está predeterminado por sua essência e sim que é livre e responsável pela sua existência).
Para ele, o objetivo de Bernard-Henri Lévy é seguir passo a passo a evolução intelectual de Sartre, que foi um discípulo de Gide (1869-1951) e um especialista de Bergson antes de afastar-se deles para juntar-se a Husserl e Heidegger quando se converteu em um dos pensadores mais influentes para uma geração ansiosa de liberdade e seduzida pelo tema do compromisso, fundamental no existencialismo.
Porém, Sartre não foi somente um filósofo da ação, aventurou-se em vários gêneros literários. No podemos esquecer que ele escreveu canções para Juliette Gréco. É aí que o nosso querido amigo e jornalista francês acha que talvez seja este aspecto que melhor esclareça o estudo de Lévy: aborda com toda a crueldade as múltiplas facetas de um homem que, em princípio, queria ser ao mesmo tempo Stendhal e Spinoza, como escreveu ele mesmo. E que na verdade nunca se quitou do hábito de filósofo e suas novelas e obras de teatro, tanto "Os caminhos da liberdade" (1945-1949) como "A porta fechada" (1944) e "O diabo e Deus" (1951) estão impregnadas deste espírito de rebeldia que determina o destino de seus personagens. A opinião geral era que estas obras haviam envelhecido, sobretudo "Os caminhos da liberdade", e que a filosofia de seu autor tornaram-nas bastante pesadas. Bernard-Henri Lévy disseca e reabilita uma ficção que não duvida em considerar como uma das mais importantes da literatura francesa dos últimos anos, precisamente pela visão do mundo que se sujeita a ela.
Lévy ainda questiona: Não se tratou de um mal entendido? Não era por um acaso uma enganação, uma obra que apesar da elegância no uso das palavras denunciava uma impostura, a da literatura que se contempla no espelho e se exibe a si mesmo? Sartre enamorado das palavras que assassina, de uma forma de arte que lhe deu vida e que pretendeu dinamitar... Sua negativa em aceitar o prêmio Nobel de 64 pode ser interpretada, não somente como um simples gesto de resistência frente a uma instituição que não lhe parecia qualificada para colocá-lo no panteón das letras, senão também como outra forma de negar o matar essa literatura. Paradoxo?
O homem Sartre levava em si todas as contradições que atravessaram seu século. Foi uma pessoa comprometida, generosa na escrita, dadivosa com os que necessitavam de sua ajuda, determinado quando havia de tomar partido a favor ou contra. Tratou ele, por um acaso, de compensar sua liderança durante a ocupação alemã, como insinuou um dia o filósofo Vladimir Jankelevitch? Lévy tentou acabar com esse deboche que durante muito tempo se fez ao autor de "As moscas" (1944), se bem que durante esses negros anos ele não foi tão combativo como Albert Camus.
Bermond acha que o problema é que Sartre lutou em todas as frentes e que suas posições, às vezes, deixavam perplexa muita gente. Bernard-Hernri Levy, que em princípio não se considerava "sartriano" mas que acabou deixando-se enredar pelo personagem, ainda quer respostas para perguntas que o perturbam: Como pode o Sartre rebelde, o que havia apoiado os nacionalistas argelinos na sua luta pela independência, converter-se no ingênuo defensor de Castro? Como pode dizer que os húngaros que se rebelaram em 1956 contra a ditadura eram um "povo imaturo"? Como pode afirmar que Kruchov cometeu "um grande erro" ao denunciar os crimes estalinistas? Porque qualificou Solzhenitsyn de "elemento nocivo"?
Isto levou Bernard-Hernri Levy a concluir que existia um Sartre rebelde e um Sartre totalitário, duas almas em um mesmo corpo, mais ou menos como o monstro de Moby Dick, cujos olhos eram, como os do escritor, tão divergentes que impregnavam seu cérebro com duas visões da realidade.
Bom, para encerrar a conversa, o que nos resta são as suas obras. E isto é que importa. Pelo menos sobre este ponto estamos todos de acordo - eu, James, Daniel Bermond além de seus partidários como também seus adversários - mesmo que os segundos não considerem que ele encarnou a época em que viveu.