Tenho que dar um jeito de rever o Chico antes do dia 4 de outubro. Este é o dia de seu aniversário de batismo e, infelizmente, não tem o que comemorar nesta data tão importante. Está doente. Paciente idoso, está agonizando em seu leito já empobrecido.
O que será de nós sem o Chico? Num passado não tão longínquo, com sua grandeza, imponência e força, foi um marco, a razão de ser e de estar na luta pela sobrevivência de milhares de brasileiros espalhados por centenas de municípios.
Foi íntimo do frei Francisco da Soledade, de Lampião, de Delmiro Gouveia, do deputado Manoel Novaes, do padre Antônio Mendes Santiago, de Maria da Cruz, de Richard Francis Burton e inúmeros personagens da nossa história. Ajudou a fazer a fortuna de Garcia D'Avila, Manuel Nunes Viana, Antônio Guedes de Brito e tantos outros, além de ter conduzido o frei capuchinho Martim de Nantes na fundação de suas missões e aldeias. Mas quem se lembra disso? Quem se importa com isso?
O Chico que foi citado e exaltado em livro de Guimarães Rosa, que sempre foi consultado e serviu de fonte de informações para engenheiros e cientistas brasileiros e estrangeiros, dando a estes indicações e fazendo revelações importantes para pesquisas que serviram ao bem estar da humanidade, está agora à beira da morte.
E se ele morrer? Quantas vidas, quantas histórias e lendas estarão morrendo com ele? Quem mais poderá contar os segredos de como transportou índios, portugueses, franceses, holandeses, escravos fujões, cangaceiros, mascates e toda sorte de aventureiros pelos sertões do Brasil?
Ninguém mais terá inspiração para contar aos assombrados viajantes as façanhas do "Compadre D'água", que quando mergulha no rio provoca um grande sumidouro, verdadeiro Triângulo das Bermudas, que já fez desaparecer navio com passageiro e tudo mais. Do Serpentão, que sairá das profundezas das águas ao soar a última trombeta do Juízo Final. Ou do mimético, contorcionista e assombroso Minhocão, com seus 120 pés de comprimento e dois metros de diâmetro, de boca pequena rodeada de fios de cabelo, semelhante à piaçaba, e de pele bronzeada que esmagará os infiéis. Isto tudo será esquecido.
Quando o conheci fiquei impressionado. Foi na década de 70, na cidade de Juazeiro, que lhe temia o poder e a força. Dias depois, por sua causa, fui convidado a trabalhar em uma grandiosa obra de engenharia que ele permitira realizar em seus domínios. Mas, o melhor que me deu não foi o trabalho. Foi a oportunidade de conhecê-lo um pouco e de entender a cultura e a vida de seus filhos e dependentes. De compreender a riqueza e a miséria do sofrido povo das "secas terras brasilis". De entender a frase de Euclides da Cunha quando disse que "o sertanejo antes de tudo é um forte". De absorver o entendimento das raízes mais profundas da cultura brasileira. De, entre estarrecido e admirado, vê-lo conduzir milhares de romeiros em sua fé profunda ao Bom Jesus da Lapa, pedindo por si mesmos e também por ele. De conviver com um povo bom e tolerante que aprende desde o berço a esperar pacientemente que ele receba as dádivas divinas das chuvas a fim de repassar-lhes condições melhores de vida.
Que ironia do destino, Chico! Você que nasceu com as lágrimas da cabocla Iati, copiosamente derramadas depois que seu noivo partiu para uma guerra sem retorno, batizado por Américo Vespúcio e André Gonçalves e que foi carinhosamente apelidado pelos nativos de "Chico de Opara", contribuindo, mesmo doente e fraco, cedendo sua parcas seivas de vida tanto para o bem estar da engenharia e da ciência, como para iluminar, alimentar e dar condições civilizadas de vida a 2,5 milhões de brasileiros - hoje não tem quem contribua para sua recuperação.
Faço aqui, como se fossem minhas, as palavras de um lamento profundo e sofrido do engenheiro agrônomo José Theodomiro de Araújo: "O Velho Chico está enfraquecido e agoniza, jurado de morte, pela ganância e inconsciência de seus próprios filhos. Quando ele morrer, nós que o amamos, faremos fixar, no paredão da Serra da Canastra, onde nasceu, em Minas Gerais, o epitáfio: por aqui passou aquele que foi destruído por um povo que usou a inteligência para praticar a burrice".
Espero, sinceramente, meu velho Chico, ainda poder vê-lo, mesmo agonizando, e morrer bem antes de ti. Gostaria de homenageá-lo no dia 4 de outubro, quando completará 500 anos de batismo, e desejar que se recupere, que volte a ser vigoroso como quando o conheci e que meus tataranetos ainda possam dizer: "Este é o velho Chico. O grande e poderoso Rio São Francisco, o rio da unidade nacional.