Luiz Carlos Guedes
SEM TRAGÉDIA NÃO HÁ TANGO
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As origens do tango não são totalmente obscuras, mas seus diversos elementos formadores tornam difícil estabelecer seu início, pois encontram-se registros desde o final do século XVII.
O tango que conhecemos hoje, e que faz sucesso em todo o mundo, é o dos anos 20 aos anos 50. O tango tratando da miséria social e resgatando a história do espaço urbano, elaborando sua mitologia, torna-se um produto típico dos anseios populares. Também utiliza uma linguagem própria, o jargão do delinqüente, que se transforma numa espécie de dialeto, como por exemplo: o lufardo - que significa "o profissional do roubo". Suas letras são a voz do povo.
As canções de Gardel tocaram os registros de sentimentalismo popular, desde o ódio irremissível até a alegria do canto pelo canto, desde a celebração de glórias até a glosa de eventos dantescos. Este é o tango, que as vezes desmente os mitos e por vezes deixa um questionamento no ar.
E o que eu quero dizer com isso? Eu quero falar do questionamento que fica no ar, das perguntas sem respostas, do ódio irremissível e das glosas de eventos importantes.
Há semanas que a mídia vem dando espaços enormes para o caso da violação do sistema eletrônico de votação do senado federal. Não se fala de outra coisa, este fato tornou-se o principal assunto do país.
Mas o que é preocupante é o fato de que o trabalho da mídia parece obedecer a uma esquematização de comportamento e procedimento que acabam por "padronizar" a produção da informação nos diversos veículos.
A cobertura diária, de ampla penetração, que acaba por ser também veículo de disseminação de formas de apreensão da realidade, parece que, a um comando surdo, faz com que todos os repórteres sejam pautados do mesmo jeito, perguntem as mesmas coisas, observem os fatos de forma idêntica e que também os editem por igual.
Além das abordagens, são quase sempre os mesmos entrevistados na cobertura factual diária. Abra o jornal, ligue a TV ou o rádio, folheie uma revista e você vai observar que, seja qualquer dia da semana, quando se trata da cobertura factual, as notícias terão praticamente o mesmo tratamento e o mesmo entrevistado em todos os veículos.
Nos últimos anos, sobretudo a partir do processo de "impeachment" de Collor e da CPI do Orçamento, assistimos à ascensão do jornalismo investigativo. Mas, o que significou um verdadeiro salto de qualidade da cobertura jornalística nacional, desencadeou, ao invés da prática da investigação, verdadeiras "ondas" de enfoques padronizados. Enfoques estes que o sociólogo Adalberto Cardoso chamou de "denuncismo": - Abriu-se um espaço enorme para o "denuncismo" e muito do que se publicou era especulação.".
Uma variação deste enfoque é a sugestão de que a sociedade brasileira é, ela mesma, incoerente, e que isso afeta a imprensa. Incoerente porque não questiona, não duvida, não analisa e deixa-se levar pela emoção, pelo pega, esfola e mata do ódio irremissível por se sentir traída e enganada através de uma denuncia assinalada como verdade absoluta, já que todos falam a mesma coisa.
Mas ninguém, nenhum veículo da chamada "grande mídia", nem mesmo os senadores da comissão de ética, falaram, questionaram ou investigaram o "por quê?", o "objetivo" de se ter violado o sistema de votação. Não vamos esquecer que, na época, o senador Antônio Carlos Magalhães era o principal aliado do Planalto e que o senador Arruda era, até o dia da denúncia, o principal líder do governo no senado. Então, qual foi o objetivo da violação para saber quem votou no sim ou no não da cassação do então senador Luiz Estevão?
O que de tão importante revelou a lista daquela votação?
Por que esta votação - se tivemos nos últimos anos votações muito mais importantes?
Para que seria (ou foi) utilizada esta lista?
O que estava acontecendo nos bastidores da política de Brasília naquela época?
Quais os motivos que levaram o senador Arruda a pressionar uma funcionária de mais de 20 anos de casa a cometer tal irregularidade?
Por que o poder executivo (Arruda, na posição de líder do governo, o representava no senado) tinha tanto interesse nesta lista?
Poderíamos aqui fazer uma centena de "por quês?" que ninguém da imprensa fez. E se fez? Por que não investiga e divulga?
Esta é a questão, meus amigos! Estamos todos sendo envolvidos por um fato sem pé nem cabeça e sendo glosados na informação de eventos mais importantes.
Mais importantes, sim! Ou achamos mais importante discutir se o senador Arruda mandou ou não violar o sistema, do que discutir a Lei que retira verba do combate à pobreza de 35 milhões de brasileiros que vivem com menos de meio salário mínimo por mês, para converter este dinheiro em títulos públicos com o objetivo de melhorar o superávit fiscal?
Será que é mais importante discutirmos se o senador Antônio Carlos Magalhães foi conivente ou não com a irregularidade da funcionária Regina, ou é mais patriótico discutirmos as irregularidades e absurdos do acordo do governo brasileiro com o governo americano no aluguel da base de lançamentos de foquetes de Alcântara?
Esses assuntos a imprensa não trata, não explora. E por quê? Porque não têm apelo, não envolvem figuras conhecidas, não têm dramaticidade pessoal, são mais difíceis de se transformarem em escândalo emocional, não há espetáculo.
Carlos Eduardo Lins da Silva diz em seu livro "O adiantado da hora: a influência americana sobre o jornalismo brasileiro" (1991 p. 98): "Censura para as idéias dos outros e liberdade para as minhas parece ser o estranho conceito de liberdade de imprensa que permeia a sociedade brasileira de alto à baixo, da esquerda para a direita".
E é por isso que eu digo: "Sem tragédia não há tango".
LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br