É a glória. Até que enfim o grande momento chegou depois de tantas lutas,
sofrimentos e sacrifícios. As manchetes de todos os jornais estarão enaltecendo
- com uma dose extra de ufanismo - a espetacular vitória. As televisões vão
mostrar o "replay" da chegada incansavelmente. As rádios repetirão a notícia, os
comentários, as entrevistas de meia em meia hora, farão pesquisas com seu
ouvintes, distribuirão prêmios. Será uma festa. Todos os fantasmas
desapareceram. Não haverá mais piadas com "pé-de-chinelo". O Brasil inteiro estará discutindo, sorrindo e vibrando de alegria em todas as esquinas, em todos os bares, em todo os lugares.
Falta pouco. Só mais três voltinhas. É apenas administrar, levar na ponta dos dedos. O locutor da TV já grita: "É o Brasil!", "É o Brasil!".
«Desacelera!», «Desacelera!». Esta palavra imbecil, absurda e desconexa explode em alto e bom som nos ouvidos, no cérebro de Rubens Barrichello. Aquela voz idiota continuava repetindo «Desacelera!», «Desacelera!». E para o espanto de todos ele desacelerou. Desacelerou para o infortúnio, para as vaias, para a decepção nacional. Permitir a ultrapassagem de seu companheiro (ou será adversário?) de equipe, revive o "complexo de vira-lata" do brasileiro que Nelson Rodrigues já falava em 58. Foi uma humilhação. As vaias não foram para a Ferrari. Torcedor não vaia técnico nem equipe quando o jogador perde um pênalti. Vaia o jogador. E este era um pênalti sem goleiro.
Ah! O contrato. Sim, o contrato diz que ele tem de obedecer ordens. Qualquer ordem? Inclusive a ordem da desmoralização, do desrespeito a si mesmo e a sua profissão? F... -se o contrato. O que iria acontecer? Quebra de contrato? - não. Perda de emprego? - não. No máximo uma semana de mal estar, uma repreensão (nos bastidores) e só. Sua honra, moral e hombridade estariam preservadas. Não pousaria de campeão moral - como quer a mídia conformista e panos-quentes - mas de campeão de fato e de direito.
O que espantou, estarreceu, foi a inferioridade em que o brasileiro se colocou, voluntariamente, em face do resto do mundo. Tal qual o uruguaio Obdulio em 1950, o diretor da Ferrari nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos. Ganimos de humildade.