25/05/2002
Número - 260


ARQUIVO
LUIZ CARLOS GUEDES


Luiz Carlos Guedes
  


LOBO COME CARNEIRINHOS


 

Gilberto Freyre dizia que alguns sociólogos faziam uma curiosa classificação dos estilos de jogos reportando-se a povos ou culturas. Por exemplo: gregos e atenienses - individualistas, britânicos - cooperativistas e prussianos, nazistas e fascistas - militaristas.

Nas copas de 58, 62, 70 e 94 fomos gregos desde criancinha, atenienses da melhor estirpe. Os valores individuais brilhavam na sua independência pessoal de jogar. A anarquia da criação imperava dentro e fora das quatro linhas. Eram os heróis da desobediência tática, da irreverência, da destruição da lógica burocrática do futebol.

Em 66, depois da desclassificação, os "entendidos" de plantão resolveram implantar de vez o padrão britânico do cooperativismo e alguns até o militarismo (talvez influenciados pela ordem operante da época). A coisa não deu certo e graças a Deus aparece um anjo anárquico para colocar as coisas nos trilhos: João Saldanha. Filosofia simples. Quem joga é o jogador e jogador tem de ser craque e craque joga sozinho. Junte os craques e terá uma seleção.

Mas os "entendidos de plantão" da mídia achavam desagradável ver só craque jogando. A seleção não tinha um padrão tático rígido como o belo futebol inglês. Cada um fazia o que dava na "telha" e mesmo com a classificação folgada para a Copa do México em 70, o esquema não agradou. Resultado: puxaram o tapete do João. Assume Mário Lobo Zagalo. Como lobo não come lobo, o velho Lobo não mexeu nos craques. Aí virou anarquia. Os craques se reuniam com o técnico e decidiam como a seleção ia jogar, quem ia jogar. Foi uma festa. E das grandes, pois trouxemos o caneco em definitivo.

Em 58 e 62 foi a mesma coisa. Ou alguém acha que Pelé, por exemplo, obedecia as instruções do Feola? Obedecia sim, as orientações do Nilton Santos, Zito e Didi. E Garrincha? Entre dar ordem e explicar posição tática para ele e falar com uma porta, tinha como resultado final a mais perfeita compreensão e obediência da porta. Os mais jovens também vão se lembrar que em 94 a copa foi ganha pela indisciplina, irreverência e genialidade de um craque - Romário.

Quando insisto na anarquia, quero dizer a mesma coisa que Gilberto Freyre dizia sobre o futebol brasileiro. Não estou falando da anarquia em contraponto da ordem. Não é o inteiro sacrifício do grupo aos caprichos dos craques. «Significa constante interação entre o esforço coletivo do grupo e as façanhas, as iniciativas, os próprios improvisos de indivíduos que, assim agindo, destacam-se como heróis, exibem-se, como bailarinos-mestres, acrescentam-se à rotina do jogo, não só em benefício próprio como em benefício do grupo.» É o que fazem no futebol os que não se dissolvem de todo no grupo, mas conservam certas e essenciais liberdades de expressão heróica e de exibição dramática.

Os nossos 23 jogadores já estão definidos. O que falta ser resolvido é: Quem vai ser a ovelha negra?

Uma família unida, obediente, certinha, disciplinada, humilde, ordeira e abstêmia pode ser comparada a um bando de cordeirinhos medrosos e assustados. Se não tiver um líder, uma ovelha negra, não sabem o que fazer quando o lobo atacar. E lobo come carneirinhos.


LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br