25/05/2002
Número - 260


ARQUIVO
LUIZ CARLOS GUEDES


Luiz Carlos Guedes



ARAKIRI NA IMPRENSA ESPORTIVA


 

Conversar com alguns amigos do rádio esportivo é uma dolorosa e tristíssima idéia. O desânimo é geral. «É a primeira vez que não vou cobrir uma copa do mundo!», disse-me um velho locutor de uma emissora poderosa, com os olhos marejados pela dor do fracasso. «A coisa tá preta! Ninguém mais quer patrocinar as transmissões, não há mais verbas para o futebol no rádio.»

A infelicidade profunda tem o hábito de nos arremessar violentamente ao passado na busca de uma compensação ressuscitadora. Como um passe de mágica somos transportados da tristeza irreparável para a alegria incontrolável de um prazer quase sexual. Foi através desta súbita transformação que o velho amigo, com o rosto iluminado pelos fantasmas do passado, começou a narrar delirantemente, entre risos e orgasmos de alegria, as lembrança dos sofrimentos, desgastes e tensões de suas últimas copas - como se toda esta odisséia turbulenta fosse vital para sua sobrevivência nesse mundo racional do vivos. Um paradoxo, pois se teve dor não poderia ter alegria, certo?

Errado. A realização de um sonho, de algo que dá prazer mesmo com o desgaste físico, mental ou emocional desfaz esta relação paradoxal. Não há vida sem perdas, sem lutas titânicas, sem o bem e o mal. Vejam o futebol, ou pior, o basquete. "É adrenalina pura", como diz meu amigo Luiz Ferreira, diretor do basquete feminino do Vasco da Gama. Em frações de segundo a tensão, o desespero e a decepção mudam de lado. É a cesta que, no último segundo, somou um pontinho de diferença no placar e definiu o ganhador e o perdedor, é o gol da vitória ou da derrota. E quando o jogo termina, o possesso vencedor, aquele que segundos atrás era uma figura disforme com seu rosto vermelho de raiva, os olhos saltados como os de um sapo-boi, que dizia impropérios para juiz, bandeirinha, jogadores e adversários - além de ter dado mais alguns cabelos brancos para o seu cardiologista e ter feito sua mulher rezar duas horas de terço em promessas para que ele não tivesse um "piripaco" qualquer - transforma-se no mais perfeito exemplar narcisista da felicidade. «Foi sofrido mais foi bom!», comemora com um sorriso largo de satisfação. Isso é o esporte. A paixão, a vida, o prazer. Uma relação bem próxima do sadomasoquismo. O irracional paradoxo das emoções.

Mas vamos voltar ao drama vivido pelo velho amigo locutor.
Quis eu, então, saber o que estava acontecendo. Porque este esvaziamento de verbas para um veículo tão poderoso, tão popular como o rádio. Ainda tentei argumentar com números, estatística e pesquisas - se funciona na política, tem de funcionar também no rádio - mostrando a ele que o "delírio" de Marcone está em 98% dos lares brasileiro, em todos os carros nacionais e importados, em todos os bares, restaurantes, lojas e indústrias. Até nos ônibus-tarifa e especiais - pelo menos aqui no Rio de Janeiro - há rádio. Também estão nas barcas, catamarãs, lanchas, aviões... Ou seja, em todos os lugares há um rádio ligado. Por ser emissor de som, o rádio é o único veículo de comunicação de massa que o usuário pode estar fazendo qualquer outra atividade enquanto se informa, se diverte e se educa. Impossível alguém contestar a força de penetração e audiência do rádio. Então, qual era a dificuldade dele para arranjar patrocinadores?

- «Credibilidade meu amigo. - disse, já com um pé novamente na depressão. O futebol perdeu a magia, a fantasia, o glamour. E isso tudo é culpa da desorganização dos clubes e federações. Do dirigentes irresponsáveis e corruptos. Dos calendários absurdos. Dessas CPI's que terminam em pizza.»

Fiquei parado, perplexo, olhando para ele. Não conseguia assimilar o seu discurso. Como um jornalista tão experiente se deixava levar por questões de oportunismo político? Sim, oportunismo. O ataque generalizado que vem sendo orquestrado à algum tempo para denegrir o futebol é uma forma simples de transferir a atenção popular dos problemas gerados pela má administração do Brasil governo para um denuncismo do Brasil futebol.

Veja o caso das urnas eletrônicas. Nenhum jornal, rádio ou TV fala ou debate o risco da manipulação deste sistema - só utilizado no Brasil e no Paraguai. Mas abrem grandes espaços para falar de supostos escândalos baseados em denúncias sem provas, em documentos alardeados aos quatro ventos como incontestáveis e que logo depois são explicados e demonstrados como perfeitamente legais. Aí ninguém divulga. Qual veículo que vai dizer que divulgou uma informação infundada, sem investigação profunda?

O que significou um verdadeiro salto de qualidade da cobertura jornalística esportiva desde 1950, desencadeou, ao invés da prática da investigação séria e principalmente da promoção do espetáculo praticado nos estádios, verdadeiras "ondas" de enfoques padronizados. Enfoques estes que o sociólogo Adalberto Cardoso chamou de "denuncismo": - Abriu-se um espaço enorme para o "denuncismo" e muito do que se publicou era especulação."

Esta onda de denuncismo "Maria vai com as outra" só fez provocar o recuo de público nos estádios, a retirada de verbas publicitárias, a queda de audiência.

O que está se fazendo é o oposto do que fazia o governo Médici. Naquela época era o "Prá frente Brasil". O governo utilizava o futebol da mesma forma que hoje, só que em vez de "escândalos" a ordem era promover ao máximo o futebol, construir estádios, fazer campeonatos brasileiros com o maior número de equipes possíveis de todo o Brasil. Assim o povo se divertia e não questionava.

Não quero nem 8 nem 80. Mas que a imprensa esportiva precisa voltar a valorizar o seu produto, precisa. O que acontece nos bastidores não pode ter mais valor do que o espetáculo no campo de futebol. Os craques, que são os verdadeiros ídolos do povo, não participam da administração do esporte, nem o povo e muito menos a imprensa. Aliás, a última vez que a imprensa participou foi na eleição do penúltimo presidente do Flamengo. E deu no que deu.

Portanto, meu velho amigo, se você se preocupar mais em enaltecer o esporte praticado nos estádios e menos com denúncias vazias, vamos voltar aos bons tempos. Caso contrario, você estará praticando o arakiri da imprensa esportiva. Matando a sua própria galinha dos ovos de ouro.


LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista
e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br