07/05/2005
Número - 419

ARQUIVO
LUIZ CARLOS GUEDES



Luiz Carlos Guedes
  


“MICO” DE FAMOSOS:
PAGAR OU NÃO PAGAR? EIS A QUESTÃO

 

Saber lidar com o ego que a fama acaricia com ardor é uma arte. Como também é uma arte lidar com o anonimato estando entre egocêntricos.

Sábado, 30 de abril, o colega Arnaldo Bloch dedicou sua coluna no segundo caderno do jornal O Globo a um episódio constrangedor para os que presenciaram e divertido para os que leram ou souberam do fato por terceiros. Trata-se da baixaria promovida pelo ator, de competência reconhecida, José de Abreu, na noite de 20 de abril no “point” de ricos e deslumbrados cariocas: o restaurante Antiquarius. De acordo com o colunista e presentes, José de Abreu deixou de lado a personificação de Josivaldo para assumir, com muita convicção, o espírito de Bozó.

O fato é que, ao receber a “dolorosa”, tentou pagar com seu cartão de crédito e foi surpreendido quando Manoelzinho, minutos depois, voltou com a indigesta notícia de que o crédito havia sido recusado.

Inegavelmente é uma situação constrangedora. O proprietário do cartão fica com cara de tacho imaginando os comentários a seu redor; “Ih! Ele não tem grana pra pagar a conta”, “Eu sempre achei que esta história de artista ganhar dinheiro é balela.”, “ Esse pessoal, só porque é famoso pensa que pode comer de graça em qualquer lugar”, e por aí vai.

Qualquer um que tenha sua consciência tranqüila quanto ao pagamento efetuado na data certa, o controle de seus gastos efetuados e do seu saldo positivo fica indignado com tal descalabro. Até aí, tudo bem. O nosso querido ator poderia ter razão.

O que levou Arnaldo Bloch – imagino eu – a preencher meia página de jornal, foi a postura que o nosso provável inadimplente adotou. Nervoso e com a cabeça já “pra lá de Marrakesh”, utilizando-se do telefone do restaurante (é claro) ligou para a central de atendimento e, aos berros, descarregou toneladas de impropérios no ouvido da pobre moça de voz suave, sedutora e amável que é treinada para ouvir o que quer e o que não quer, mas que não decide ou resolve nada. Infelizmente, e isso é um erro do mundo moderno, o que decide, o cérebro competente e calculista – muito bom em números e contas, diga-se de passagem – mas que não tem coração e é burro como ele só, faz apenas o que está programado para fazer, é o “doutor” computador central. E estamos conversados.

O que aconteceu então? Depois de ouvir a sedutora voz lhe dizer que não podia fazer nada, pois o calculista, desumano, imbecil e burro computador afirmava que o crédito tinha se esgotado, foi a gota d’água. Já transtornada e envergonhada, a alma embriagada de José de Abreu cedeu à livre atuação do espírito do Bozó. Só ele poderia salvá-lo de vexame.

Muito atuante nos meios artísticos e de comunicação, o espírito do Bozó é solicitadíssimo pelos que trabalham na “vênus de platina” quando são contrariados em seus desejos ou contestados por incautos mortais sem expressão midiática. E lá estava ele para salvar José de Abreu inspirando-o a dizer a sua famosa, incontestável e arrebatadora frase – “Eu sou o ator José de Abreu, eu sou da GLOBO”. Pronto, situação resolvida. A solução estava dada. Não para o já conhecido “burro, imbecil e incompetente doutor computador central” que não conhece nem a Globo, mas sim para os donos do restaurante e os comuns humanos presentes. Afinal de contas ele é da Globo, um ser quase que supremo. Não fica bem um tipo assim, com ou sem dinheiro, lavar pratos. Por tanto, tapinha nas costas, risos da situação e divida perdoada.

Esse “passaporte” assumido por empregados de instituições momentaneamente poderosas é muito comum. Não foi à toa que Chico Anísio criou o personagem Bozó – aquele que cantava todas as boazudas mostrando o crachá da Globo – para satirizar uma situação tão comum nos meios artísticos.

Se, por um acaso, você que está lendo este artigo agora, trabalhou ou ainda trabalha há algum tempo em divulgação musical, deve estar se lembrando da era Sony Music. Quantas vezes nas salas de espera da direção artística de emissoras de rádio ou TV, ou mesmo na ante-sala dos redatores responsáveis pelo caderno B dos jornais, os pobres divulgadores de gravadoras menos poderosas financeiramente não eram surpreendidos com a entrada triunfal de moças que passavam sem nem ao menos lhes dirigir o olhar e, entrando na “sala proibida”, diziam simplesmente – I’m sorry. I’m sony – sem se importar com as horas e horas dos que lá estavam esperando. E muito menos com a severa secretária que não se atrevia a esboçar qualquer reação. Quem trabalhou lá sabe que este era o grande lema da empresa.

Mas há também a situação inversa. Os constrangimentos dos “não globais”.

Estava eu, comportadamente, na fila de cumprimentos do casamento de um amigo de infância entre muitos artistas globais e globáveis, acadêmicos respeitáveis, políticos expoentes e empresários bem sucedidos. Todos conversavam animadamente enquanto a fila andava.

O pai do noivo, primeiro posicionado para receber as felicitações, abraçava e sorria para os convidados falando uma piadinha aqui, uma brincadeirinha acolá, com muita intimidade. Tudo na mais perfeita harmonia e descontração.

Na minha frente estavam, nada mais nada menos, o casal José Sarney conversando alegremente com Chico Anísio, que lhes contava a última do Severino. Dizia ele que circula na internet um suposto abaixo assinado de todas as associações, clubes e entidades de classe das prostitutas do Recife, afirmando a todos os brasileiros que o nosso digníssimo presidente da Câmara de Deputados não era filho de nenhuma delas. O Senador e todos que estavam próximos se divertiram muito com a história.

- Meu Presidente! disse o pai do noivo abraçando calorosamente o “ex”. Que prazer em vê-lo. Precisamos conversar. Vamos depois marcar aquele churrasco lá em Angra.
- Parabéns pelo casamento de seu filho - disse Sarney amavelmente. Eu também preciso conversar muito com você.
O pai abraçou mais uma vez o político acadêmico que logo passou a cumprimentar a mãe emocionada.

Chegou a minha vez.
O importante genitor do nubente me olhou meio desconfiado, mas com aquele sorriso simpático de quem já sorri a horas e os músculos enrijeceram. Estendeu a mão e puxou-me para um abraço. Colou seu rosto no meu e disse baixinho no meu ouvido:
- E o senhor, é o famoso quem?....


(07 de maio/2005)
CooJornal no 419


LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br