Luiz Carlos Guedes
O "BARRACO" NO TERREIRO
E A SALVAÇÃO DO
PAI
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A notícia caiu como uma bomba em todos os terreiros e casas de santo do
estado. Pela primeira vez, em séculos de tradição, um axogum havia
desrespeitado o pai de santo e se negou a realizar seu trabalho. Pior
ainda,
na frente do cliente solicitante. Federações, associações, líderes de
terreiro, pais de santo, todos foram convocados para uma reunião
extraordinária onde discutiram o problema e a punição. Foi uma confusão.
Movimentou toda uma comunidade religiosa. Mas nenhum jornal, nenhuma
rádio
nem televisão falou do ocorrido. A sociedade nem tomou conhecimento do
caso.
Por isso, vou contar uma mentira "procêis".
Tudo começou quando um dia - e já faz algum tempo - o Pedrão Navalha,
marginal conhecido e competente, mandou chamar seu advogado. Estava, mais
uma vez, preso. Só que agora a prisão era injusta. Não tinha matado nem
seqüestrado e muito menos assaltado ou estuprado. Não era justo.
O doutor das leis foi ao seu encontro, analisou o processo, ouviu a versão
de
Pedrão e concluiu que realmente o distinto matador tinha razão. Não havia
prova consistente para mantê-lo na prisão. Não naquele caso específico.
Durante a conversa, o advogado disse que tiraria o "aliviador de almas
incautas" da prisão, desde que este prometesse que não mais mataria
ninguém
em sua vida miserável. Só então, depois da promessa feita com convicção
franciscana, foi dada entrada na contestação e pedido de soltura. Dias
depois, Pedrão estava livre.
O tempo passou e nunca mais se ouviu falar das barbáries de Pedrão. O
homem
havia sumido do mapa. E só por este fato a população deveria ter erguido
uma estátua em homenagem ao convincente e influente rábula - homem
inteligente de grande experiência e verve impressionante.
Mas o mundo dá voltas. O bem e o mal se entrelaçam, trocam de posição
constantemente. Diz o ditado popular que "O pau que dá em Chico, dá em
Francisco" ou, ainda, "Um dia é da caça, outro do caçador". E a vida segue em
frente porque atrás vem gente.
Em certa tarde ensolarada e abafada, o nosso advogado, depois de ter saído de
uma reunião desgastante onde estava praticamente conseguindo o despejo de
uma grande instituição da sede que ocupava há muitos e muitos anos, cansado
e com vontade de ir para casa, liga ao seu escritório - cumprindo assim um
ritual de dever profissional - confirmando se havia algum assunto urgente
e
importante que o obrigasse a ir até lá.
A amável secretária passa-lhe
todos
os recados e completa: - Doutor, é melhor o senhor não vir aqui. Tem um
"negão" enorme e mau encarado com um saco cheio de coisas estranhas,
dizendo
que só sai depois de falar com o senhor. Acho melhor o senhor não vir, não.
Ele tem cara de que quer fazer alguma coisa ruim".
Tranqüilo e destemido,
lá
foi o advogado para escritório. E, ao abrir a porta, deu de cara com quem? -
Pedrão Navalha.
Respirou fundo, olhou para o "negão", depois para o saco, e com amabilidade
e
sorriso nos lábios perguntou:
- E aí, Pedrão, qual foi a encrenca desta vez? Matou alguém?
- Nããããooo, "dotô" . Eu não prometi pra "vós mercê" que nunca mais
ia matar
ninguém? Então?
- E por onde tem andado, Pedrão?
- Ah! Dotô, nem lhe conto. O sinhô sabe que eu não vivo sem vê sangue, né?
Mas como tinha prometido não matá gente, fui trabalhá de axogum no
terreiro
do pai Zezinho da Pata Preta. O senhô sabe o que é axogum, né? É o ogam de
corte. Gente da mais alta especialidade e confiança do "pai". E se a
especialidade é sabê cortá e tirá sangue eu tenho um curriculum
invejáver.
Pedrão olhou para o advogado e com olhos mareados de emoção, continuou.
- Dotô, foi a minha salvação. Eu já num güentava mais. Tinha que cumpri a
promessa dada mas minhas mão coçava, dotô. Então surgiu essa
oportunidade. Eu trabalhava com prazer, não tinha horário, tava sempre disponíver. Que beleza!
A cada facada "nus bicho" era aquele rio de sangue. Eu ficava
todo ensopado. Nunca pensei em sê tão feliz na vida, dotô. Ia durmi de alma lavada.
Para a secretária que ouvia apavorada a conversa, foi a gota dágua. Não
conseguia mais agüentar e, com o estômago na boca, correu para o banheiro.
Pedrão,
com desdém, acompanhou com o olhar a "branquela" e continuou sua estória.
- Mas acabou acontecendo uma tragédia, "dotô". Fui demitido e proibido de
"trabalhá" em qualqué terreiro por esse mundão afora. Tô num mato sem
cachorro.
- Mas demitido por quê? O que aconteceu? - perguntou curioso o "dotô".
- Foi o seguinte, meu rei. Tava eu lá feliz da vida quando chegou um
"trabalho" grande. Servicinho pesado, desses que encomenda a morte de
gente,
feito com bezerro. Então, colocaram o animar lá no meio e eu fiz tudo
direitinho, como manda o figurino. Amarrei uma galinha preta de pé preto
em cada pata do bicho... o senhô sabe que pra bicho grande a gente tem que
amarrá as pata com galinha preta, né? Aí, comecei a retaliá o bicho na
maior felicidade. O caldo intornou quando o pai Zezinho pediu pro distinto
solicitante o paper com o nome do desgraçado que devia subi pro além,
pra
colocá no sangue. O home deu o paper pro pai e ele me passou a folha.
Pedrão balançou a cabeça, desolado.
- Ah! dotô, quando eu li o nome... o sangue ferveu aqui pur dentro.
Levantei, olhei bem nos óio do pai Zezinho e disse: "Meu pai, eu num vou
colocá esse paper no sangue não. Esse nome que táqui é do meu outro
pai. E meu pai não vai matar o meu outro pai. Não faço e quem chegar perto
eu mato".
- Seu dotô, foi uma confusão. Um corre-corre. Pai Zezinho ficou
nervoso, disse que eu estava desmoralizando ele e coisa e tal. Mandou
chamá todo mundo pra decidi minha punição. Eu fiquei firme. Não ia fazê e
não fiz mesmo. Não teve jeito. Eu num arredava da minha opinião daqui e o
pai num arredava da opinião dele de lá. Reuniu todo mundo e me demitiram pra
sempre desse serviço. E eu tava tão feliz...
De cabeça baixa, Pedrão soluçou, enxugou as lágrimas e olhando novamente
para o advogado, sorriu e disse.
- Mas assim é a vida. Agora tô aqui e trouxe umas erva e defumadô pra
fazê uma limpeza no escritório.
- Limpar meu escritório para quê, Pedrão?
- Uai! O nome que tava no paper era o do senhô, dotô.....
(14 de maio/2005)
CooJornal no 420
LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
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