21/05/2005
Número - 421

ARQUIVO LUIZ CARLOS GUEDES |
Luiz Carlos Guedes
QUEM DIRIA;
NÃO É SÓ DEUS QUE É BRASILEIRO,
O OUTRO TAMBÉM É
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O jovem jornalista de um grande diário baiano, José da Silva e Santos,
estava feliz naquela manhã de segunda-feira. Já imaginava seu nome
assinando a matéria de capa.
Chegou, e já entrando direto na sala do redator-chefe jogando um calhamaço
de anotações em cima da mesa.
- Chefe, dá uma olhada nisso. Vamos vender jornal que nem água em domingo
de sol forte na praia de Itapuan.
O chefe olhou, leu, fez careta e devolveu os papéis para o nosso Zé.
- Tá maluco, rapaz! Você acha que eu vou autorizar uma coisa dessas? Tá
querendo desmoralizar o jornal ou perder seu emprego?
- Mas chefe, é tudo verdade. Tenho os depoimentos, as testemunhas e até
fotos.
- Olha Zé, pensei que você fosse mais inteligente. Não está vendo que isso
é coisa de gente maluca? Não quero mais conversa. Cai fora.
- Mas, chefe...
- Sai logo da minha sala antes que o demita por diarréia cerebral.
José da Silva saiu arrasado. O sonho da primeira página se evaporou. Não
entendia porque o chefe não lhe dava crédito. Estava tudo ali. Ele mesmo
tinha visto com seus próprios olhos.
Saiu do prédio, atravessou a rua e sentou-se na mesa de fundo do bar que
todos conheciam pelo apelido carinhoso de “Anexo B”. Lá pelas tantas, e
depois de “algumas saborosas” entornadas, ele desabafou com um colega que
foi consolá-lo.
Ele havia ido fazer uma matéria sobre a colônia de pescadores em Barracuda,
Depois de tudo pronto foi dar uma volta pela região. Para o lado sul,
encontrou um lugarejo de que nunca se ouviu falar. Chamam de Castelo
Velho. Nem mesmo os pescadores comentam sobre local tão lindo e arrepiante
ao mesmo tempo.
- Como é que pode, Zé? Lindo e arrepiante ao mesmo tempo? – perguntou o
amigo.
Mas era verdade. Um lugar cheio de coqueiros, mar azul, muito tranqüilo. A
estrada é de chão batido. O vilarejo contava com 30 casas de madeira com
cobertura de palha, espaçadas entre os coqueirais, todas do mesmo lado, de
frente para o mar. Um paraíso.
- Se é paraíso, não pode ser aterrorizante Zé. – comentou a colega já
desconfiado que o chefe tinha razão.
Este era o “x” da questão. Do outro lado da estrada, na praia, bem no meio
do lugarejo, tem uma casa térrea com formato de castelo. Muito antiga.
Daquelas com figuras estranhas esculpidas nas colunas e já bastante
carcomida pelo tempo. Uma inscrição em latim gravada na enorme viga que
fica acima do portal de entrada chamava a atenção. Curioso, o Zé parou no
botequim “pé sujo” que fica de frente para a casa e foi falar com o
proprietário.
Era fim de tarde quando o jovem repórter entrou naquele boteco apertado,
mal iluminado e com um forte cheiro azedo. O proprietário estava encostado
no balcão palitando o que tinha sobrado da dentadura. No canto esquerdo,
um velho sentado à frente de uma mesa sebenta segurava uma garrafa de
cachaça. Amável e educado, o jornalista procurou saber de quem era aquela
casa esquisita. Quem morava lá?
- É o caramunhão, o demo em pessoa, que mora aí. – respondeu o velho
levantando a garrafa.
- Oh! mestre Ambrósio, não fala assim senão o moço pode acreditar e nunca
mais volta aqui. – reclamou o proprietário do bar.
- Mas é verdade. – gritou o velho – Ele mora aí mesmo seu moço, desde que
o mundo é mundo. Eu tenho 85 anos. Meu avô nasceu aqui e ele já morava aí,
meu pai nasceu aqui, eu nasci aqui, e “ele” continua aí.
O velho marujo deu mais um “tapa de beiço” e deitou falação.
- Tá vendo este lugar, seu moço? É terra de pescador há mais de quinhentos
anos. Não muda. Ninguém tem força para ir embora daqui. E enquanto o
cramunhão não sai viajando para espalhar tragédia pelo mundo, não se
consegue pesca nem peixinho de aquário. Some tudo. Os pássaros não cantam,
o mar fica revolto, os gatos não miam, os cães não latem, até os calangos
e siris se escondem. O silêncio é total, sem lua, sem sapos, sem grilos,
sem nada. É um lugar esquecido por Deus seu moço, por isso é que “ele”
mora aqui.
Enquanto o velho pescador falava, José da Silva fixou os olhos na
inscrição acima do portal. Seu pai é latinista portanto ele, como bom
filho, sabia traduzir exatamente o que lá esta escrito. Ao mesmo tempo em
que lia, sentia um frio percorrer sua espinha: «Então desceu sozinho à
lúgubre cripta; E quando na escuridão se sentou em sua cadeira, sobre sua
cabeça fechou-se a caverna; Seu olhar pairou na tumba e fitou Caim.»
Ao baixar a vista, notou que na porta da casa sentados em posição de
guarda, havia dois enormes cães negros - da já extinta raça “mastim
gigante” - de olhos vermelhos chispantes como fogo. Desta vez seu corpo
chegou a tremer.
Já irritado, o dono do bar levou outra garrafa para o pescador “língua
solta” e, tentando amenizar a situação, disse ao nosso jornalista que não
desse muita atenção ao velho. A coisa não era bem assim. Pelo contrário. O
dono da casa muitas vezes recebia gente importante. No ano passado, por
exemplo, esteve lá aquele senador baiano que tem casa de veraneio em
Itaparica. Este ano, foi aquele deputado pernambucano uma semana antes de
ter sido eleito presidente da câmara.
- Ah! – lembrou o taberneiro – e vem gringo aqui também. Lembra do gringo,
mestre Ambrósio? – gritou para o velho – Ele esteve aqui duas vezes, já. A
primeira há uns seis anos. Depois sumiu. E agora, há mais ou menos um ano
e meio ou dois, esteve de novo. Como era mesmo o nome dele...? É que eu
sou ruim de guardar nome, principalmente estrangeiro. Mas o motorista me
deu um adesivo com foto, número e nome enquanto tomava uma cerveja
esperando o patrão sair. Eu vou procurar.
O velho, aproveitando a deixa, voltou a resmungar.
- E esse gringo, ó... sei não. Do jeito que estes cães danados fizeram
festa nas duas vezes que esteve aqui, se assanhando todo pra ele, dou
minha cara a tapa se não é filho do cramunhão aí. Se não for filho, é
parente bem próximo. Boto minha mão no fogo.
O dono do bar voltou todo satisfeito com um adesivo de propaganda política
na mão.
- Olha, seu moço, é este aqui que faz a alegria das feras pretas.
O jovem José da Silva Santos teve de se apoiar no balcão para não
estatelar no chão. Está tudo lá. Foto, número e nome em letras garrafais.
- “George W. Bush”.
A matéria não saiu, ninguém soube, ninguém viu.
As últimas informações, dão conta de que lá pelas bandas de Barracuda e
Castelo Velho a pesca esta farta há duas semanas. Que um cidadão da região
foi visitar um aparentado no exterior. E um velho pescador passa o dia
andando de um lado para outro gritando:
- Valha-me Deus e Nossa Senhora! Vem merdança por aí.
(21 de maio/2005)
CooJornal no 421
LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br
guedes@vivario.org.br
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