11/06/2005
Número - 424


ARQUIVO
LUIZ CARLOS GUEDES



Luiz Carlos Guedes

 

OS DESEJOS DE KURA E ANGUDO

 

“Coitados! Vieram. Não tinham roupa, não tinham atitude, não tinham nada. Quando chegaram não tinham coisa alguma. Alguns não quiseram vir. Mas também não achavam que lá era bom. Lá não tinha nada, não tinha todas estas coisas que têm aqui. Os que vieram, vieram aos poucos, andando dois a dois.”

Formas e linguagem eram únicas aos seres daquele tempo. O mundo era domínio das trevas.

Um dia surgiu a Luz. Invadiu o planeta e instituiu as diferenças entre os seres. As pessoas se tornaram diferentes dos animais. A metamorfose se dava na e pela Luz.

Aqueles que se colocavam sob o raio de Luz, permitindo envolver-se de corpo inteiro, despertaram o raciocínio e o entendimento do amor na bondade, felicidade, humildade e força interior. Transformaram-se na bela forma humana.

Os que tentaram se esquivar da Luz não permitindo que esta os iluminasse por inteiro, despertaram em si os sentimentos da dor, do ódio, da inveja e da indolência. Seus corpos ficaram híbridos, metade humano metade animal. E se atiravam ao fundo das águas aonde a Luz não chegava, tornando-se assim seres excluídos.

A Luz trouxe a dualidade ao mundo. Uma dualidade expressa na forma e na linguagem, no desejo e no comportamento.

Durante séculos os dois povos viveram guerras titânicas. Veio então um ser poderoso. Falava a linguagem das sombras, da Luz e dos bichos. Só ele tinha a revelação da língua do tempo. Tornou-se rei e nomeou os seres. Os belos e perfeitos foram chamados de Kuras, os híbridos das profundezas de Angudos.

Piaijé, o rei, determinou então que Kuras e Angudos, depois da morte física, iriam velar juntos pelos seus descendentes por toda a eternidade.

Teriam o direito do desejo e da palavra aqueles cuja atitude dos descendentes - fossem Kuras ou Angudos – no aconchego do lar, se assemelhasse às suas convicções. Ou seja, a harmonia ou o caos.

E até hoje assim é.

Quando o homem, na sexta-feira, ao fim do dia, deixa seu trabalho e retorna ao lar, Kura e Angudo o acompanham passo a passo.

Entra o homem em sua casa. Se a mesa está preparada, a sala arrumada e iluminada para o convívio alegre e harmonioso da família, Angudo fica privado da voz. Fala, então, Kura, que proclama em tom de intensa alegria:
- Que a Paz e a Prosperidade permaneçam para o resto da semana, neste lar abençoado e feliz.

Angudo, embora a contragosto, é obrigado a aderir. Abaixa a cabeça e resmunga:
- Amém!

Mas se a habitação estiver escura, suja e em desordem, Kura permanece mudo como uma estátua. Cabe, nesse caso, a palavra a Angudo, que assim se manifesta em tom rouco e aziago com as pupilas a faiscar de fogo:
- Tão escuro e triste como o dia de hoje sejam, para este lar infeliz, todos os dias da semana!

Kura, com imenso pesar, é forçado a aceitar aquele voto, reafirmando com profunda mágoa:
- Amém!



(11 de junho/2005)
CooJornal no 424


LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br
guedes@vivario.org.br