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Luiz Carlos Guedes
Pendurem a conta até outubro
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Futebol é um jogo simples. Um menino sozinho com uma bola consegue jogar
futebol chutando-a contra a parede. Se tivermos dois meninos a coisa fica
melhor ainda, eles brincam com chutes a gol. E quatro então? É a glória,
temos aí dois times.
Futebol se joga em qualquer lugar. Com bola de couro, de meia, de bexiga,
de sei lá o quê. Até nas geleiras do Ártico se joga futebol. Bola de neve
também vale.
A teóloga alemã Dorothee Sólle (1929 - 2003) já dizia que "o melhor modo
de explicar a felicidade a um menino é dar a ele uma bola de futebol." E
eu diria que a melhor maneira de explicar a felicidade para 180 milhões de
crianças e marmanjos brasileiros e dar a eles o sexto título de campeão do
mundo.
Estamos todos esperançosos. Se a escritora gaúcha Clara Averbuck - que
odeia futebol e só fala raramente do assunto porque é neta do Cuspida,
ex-craque do Renner e do Grêmio nos anos 50 e 60 - acredita na seleção,
quem não vai acreditar?
Até mesmo Lima Barreto, que em 1918 disse ser o futebol um espetáculo de
brutalidade, um jogo estúpido, se vivo fosse com certeza torceria o nariz,
mas acreditaria.
Não temos dois times de quatro crianças. Temos vinte e três craques de
bola. Onze de cada lado e um de sobra. Se os ditos reservas vestissem a
camisa de outro país numa final com os nossos titulares, o "bicho ia
pegar".
Mesmo para os gênios do cinema, teatro ou literatura será sempre
impossível escrever um roteiro mais emocionante do que um jogo de futebol.
E para a emoção e felicidades de milhões, revolta e desprezo de poucos,
este mês de junho o mundo é do futebol.
Por falar em revolta, tenho um amigo que desconfio já ter lido tudo sobre
Joseph Goebbels, pois acredita piamente que o futebol é a utopia do povo.
Outro dia nos encontramos num bar e ele me perguntou - "Mas, e os
problemas nacionais? Corrupção, violência, pobreza, falta de emprego e
dinheiro, eleições, etc e coisa e tal, patati, patatá, perereca, caixa de
fósforos. Ninguém discute mais nada?"
Puxei uma cadeira: - "Senta aqui, meu velho, enquanto você molha o bico eu
vou lhe dizer uma coisa. Em Brasília, já fizeram uma montanha de pizza com
todos estes ingredientes. E sabe o que a gente vai fazer? Comer todas
depois da vitória sobre a Itália."
A risada foi geral em volta de nossa mesa, o que piorou o humor e a
revolta do meu amigo.
Para tranqüilizar a fera, lembrei-lhe um ditado: O apressado come cru.
"A conta dos problemas que está cobrando só vai chegar em outubro e cada
um de nós, futebologistas inveterados, temos guardado no bolso um vale
precioso - o voto. É esse voto que vamos apresentar na hora de pagar a
conta. Portanto, meu amigo, até lá, vamos curtir a festa".
Dito isto, voltemos ao que interessa. Já pensou uma final entre Brasil e
Alemanha? Seria divertido ver pela TV a torcida cantando aquele velho
refrão "A copa do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa..."
enquanto aplicamos uma sonora goleada nos “Deutsches” e assistimos,
deliciados, a elegante chanceler Angela Merkel sussurrar no ouvido do
famoso kaiser Franz Beckenbauer:"“Vão jogar bem assim no raio que os
parta!"
(03 de junho/2006)
CooJornal no 479
LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista
editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br
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