03/06/2006
Número - 479


ARQUIVO
LUIZ CARLOS GUEDES


 
Luiz Carlos Guedes

 

Pendurem a conta até outubro
 

Futebol é um jogo simples. Um menino sozinho com uma bola consegue jogar futebol chutando-a contra a parede. Se tivermos dois meninos a coisa fica melhor ainda, eles brincam com chutes a gol. E quatro então? É a glória, temos aí dois times.

Futebol se joga em qualquer lugar. Com bola de couro, de meia, de bexiga, de sei lá o quê. Até nas geleiras do Ártico se joga futebol. Bola de neve também vale.

A teóloga alemã Dorothee Sólle (1929 - 2003) já dizia que "o melhor modo de explicar a felicidade a um menino é dar a ele uma bola de futebol." E eu diria que a melhor maneira de explicar a felicidade para 180 milhões de crianças e marmanjos brasileiros e dar a eles o sexto título de campeão do mundo.

Estamos todos esperançosos. Se a escritora gaúcha Clara Averbuck - que odeia futebol e só fala raramente do assunto porque é neta do Cuspida, ex-craque do Renner e do Grêmio nos anos 50 e 60 - acredita na seleção, quem não vai acreditar?
Até mesmo Lima Barreto, que em 1918 disse ser o futebol um espetáculo de brutalidade, um jogo estúpido, se vivo fosse com certeza torceria o nariz, mas acreditaria.

Não temos dois times de quatro crianças. Temos vinte e três craques de bola. Onze de cada lado e um de sobra. Se os ditos reservas vestissem a camisa de outro país numa final com os nossos titulares, o "bicho ia pegar".

Mesmo para os gênios do cinema, teatro ou literatura será sempre impossível escrever um roteiro mais emocionante do que um jogo de futebol. E para a emoção e felicidades de milhões, revolta e desprezo de poucos, este mês de junho o mundo é do futebol.

Por falar em revolta, tenho um amigo que desconfio já ter lido tudo sobre Joseph Goebbels, pois acredita piamente que o futebol é a utopia do povo. Outro dia nos encontramos num bar e ele me perguntou - "Mas, e os problemas nacionais? Corrupção, violência, pobreza, falta de emprego e dinheiro, eleições, etc e coisa e tal, patati, patatá, perereca, caixa de fósforos. Ninguém discute mais nada?"

Puxei uma cadeira: - "Senta aqui, meu velho, enquanto você molha o bico eu vou lhe dizer uma coisa. Em Brasília, já fizeram uma montanha de pizza com todos estes ingredientes. E sabe o que a gente vai fazer? Comer todas depois da vitória sobre a Itália."

A risada foi geral em volta de nossa mesa, o que piorou o humor e a revolta do meu amigo.

Para tranqüilizar a fera, lembrei-lhe um ditado: O apressado come cru. "A conta dos problemas que está cobrando só vai chegar em outubro e cada um de nós, futebologistas inveterados, temos guardado no bolso um vale precioso - o voto. É esse voto que vamos apresentar na hora de pagar a conta. Portanto, meu amigo, até lá, vamos curtir a festa".

Dito isto, voltemos ao que interessa. Já pensou uma final entre Brasil e Alemanha? Seria divertido ver pela TV a torcida cantando aquele velho refrão "A copa do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa..." enquanto aplicamos uma sonora goleada nos “Deutsches” e assistimos, deliciados, a elegante chanceler Angela Merkel sussurrar no ouvido do famoso kaiser Franz Beckenbauer:"“Vão jogar bem assim no raio que os parta!"



(03 de junho/2006)
CooJornal no 479


LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista
editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br
guedes@vivario.org.br