
15/07/2006
Número - 485

ARQUIVO LUIZ CARLOS GUEDES |
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Luiz Carlos Guedes
Qual é a filosofia de sua empresa,
a do ovo de pata ou de galinha?
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Quem produz alguma coisa, quem presta um serviço, o faz, via de regra,
para ganhar dinheiro. Isto vale tanto para trabalhadores como para
empresários. Nenhum de nós pode se dar, constantemente, ao luxo de
satisfazer apenas os desejos de outros, sem auferir renda para si.
A renda real é a meta da maioria das atividades econômicas. O trabalhador
trabalha para receber seu salário; o empresário, para auferir lucros.
Ficaria assim confirmado que os produtores se interessam apenas por sua
renda e não pelas necessidades dos consumidores? Não.
É evidente que a produção precisa orientar-se pelas necessidades das
pessoas. Se, na economia de mercado, pretendemos comprar um pão, um casaco
ou um automóvel, temos a escolha entre várias padarias, várias lojas de
roupas e várias marcas de automóvel. Compraremos de quem corresponder
melhor a nossos desejos e necessidades.
Os fornecedores cujos produtos não correspondem a nossas necessidades
venderão pouco e ganharão pouco dinheiro. Os fornecedores cujos produtos
correspondem a nossas necessidades venderão muito e ganharão muito
dinheiro. Os produtores que erram na avaliação das necessidades do
consumidor sofrem perdas. Os produtores que se orientam pelas necessidades
do consumidor realizam lucros. Lucros e perdas indicam se a produção
corresponde ou não às necessidades. A procura de lucro por parte dos
produtores garante que eles se orientem pelas necessidades dos
consumidores.
Há uma história muito interessante que faz um paralelo entre necessidade,
produção e consumo. Um expert no assunto, mundialmente reconhecido,
durante uma palestra a centenas de empresários, foi questionado sobre como
duas empresas do mesmo ramo que comercializavam o mesmo produto do mesmo
fabricante podem, uma ter sucesso e a outra fracassar? O nosso
palestrante, então, indagou: “Quem aqui já comeu ovo de pata, por favor,
levante a mão.” Todos no auditório se entreolharam admirados pela pergunta
um tanto quando fora de propósito. Ninguém levantou a mão. “E qual dos
senhores já comeu ovo de galinha?” Sem entenderem muito a razão da
pergunta, todos levantaram a mão. “Está é a razão do fracasso e do
sucesso”, disse o palestrante.
“Como assim? - contestou um dos empresários
- o que tem a ver ovos de patas e galinhas com fracasso e sucesso de
empresas?”
“Tudo a ver, meu amigo. A natureza nos proporciona fazer um paralelo entre
sucesso e fracasso através da atitude de comunicação de duas aves que
produzem a mesma coisa. O ovo.” Perplexidade total no auditório.
O expert então explicou: “A pata, quando coloca seu produto no mercado (o
ovo), fica quietinha, escondidinha, ninguém fica sabendo que tem ovo de
pata disponível, mesmo que este seja melhor e mais nutritivo do que o ovo
da galinha. Já está, ao contrário da concorrente, quando coloca seu
produto no mercado faz um escândalo, todo mundo fica sabendo que está
disponível e onde encontrar. O ovo de pata ninguém come porque não sabe
suas características, seus nutrientes e onde comprar. É um produto bom,
mas fadado ao fracasso. O de galinha, de tanta publicidade que ela faz,
todos conhecem e compram. É sucesso de mercado. Até mesmo por falta de
opção.”
E é assim que funciona o mercado. É a atitude de comunicação da empresa
que faz a diferença.
Mas será que a publicidade é realmente expressão de nossas necessidades?
Ou é o marketing dos fornecedores quem dirige e até mesmo cria a procura
segundo seus interesses? Através da publicidade, do desenvolvimento de
produtos constantemente novos, da obsolescência planejada, os fornecedores
não criam as necessidades que pretendem satisfazer? A publicidade consegue
este feito? Quem vendesse essa receita milagrosa às agências de
publicidade logo ficaria milionário.
Qualquer agência de publicidade pagaria o preço que fosse a alguém que,
por exemplo, conseguisse transformar não-fumantes em fumantes inveterados.
Quem não gosta de doces não mudará de gosto por mais convincente que seja
a publicidade.
Por que, então, as empresas gastam milhões em publicidade? Por que os
spots publicitários mostram roqueiros se deliciando com sorvetes ou
chocolate? Acontece que muitos que se consideram durões gostariam, de vez
em quando, de um doce, se este não tivesse uma imagem soft, nitidamente
feminina. É aqui que entra a publicidade.
No caso, procura compatibilizar a imagem de um produto com a auto-imagem,
isto é, com as necessidades de um grupo de consumidores. Procura
demonstrar a um grupo de consumidores que sua necessidade recôndita (de
doces) não precisa colidir com sua auto-imagem.
A nossa auto-imagem tem algo a ver com o que as pessoas ao nosso redor
pensam de nós. Procuramos o reconhecimento dos grupos aos quais julgamos
pertencer. Quanto maior esta tendência, tanto mais sensíveis seremos a
influências externas. É aí que intervém a publicidade.
Não foi a necessidade de reconhecimento social que criou a publicidade. A
procura de status é tão antiga como a convivência entre os seres humanos.
Mesmo se não fôssemos sensíveis a estas influências externas, a
publicidade não seria supérflua.
A concorrência é condição para que a produção se oriente pelas
necessidades. Portanto, os concorrentes precisam da possibilidade de nos
informar a respeito da existência e das características de produtos
concorrentes, precisam fazer a publicidade dos mesmos.
Sem publicidade para um produto novo, menos poluente, por exemplo,
continuaríamos a comprar o produto antigo. As participações no mercado se
tornariam rígidas. Adormeceria a concorrência. Concorrência e publicidade
estão interligadas.
E então? Qual é a filosofia de comunicação de sua empresa? A da pata ou da
galinha?
(15 de julho/2006)
CooJornal no 485
LUIZ CARLOS GUEDES é professor, jornalista, radialista
editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br
guedes@vivario.org.br
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