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Luiz Carlos Guedes
IntolerÂncia
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Um jovem procura seu
mestre e pergunta:
- Mestre, como separar o sentimento de intolerância da tolerância?
Ora, meu filho - responde o mestre - intolerância é o ódio sistemático e
de agressividade irracional em relação a indivíduos devido à sua maneira
de ser, a seu estilo de vida e às suas crenças e convicções.
Mas, mestre - intervém o jovem - em meio à crueldade e barbárie
resultante de intolerâncias mútuas, há sopros de convivência pacífica
fundada no respeito e tolerância.
É verdade - disse o mestre - é como se, por todos os séculos, esse nosso
mundo tivesse sido percorrido por sopros de intolerância, esperança e
desespero, todos juntos. No entanto, tenha em mente que a intolerância
carrega em si a necessidade da eliminação seja física, moral ou
espiritual do seu oponente. Se ainda houvesse inquisição, a intolerância
do inquisidor levada ao limite, condenaria à fogueira o próprio Cristo.
É um ódio fundamentado na razão, na desculpa justificada. O fanático
manifesta sua intolerância como se esta fosse uma necessidade racional
em prol de objetivos humanitários, fundamentando seu discurso
justificador das atrocidades cometidas em nome da humanidade.
Diz o jovem:
- Entendo que a intolerância ultrapassa os limites da racionalidade e,
assim, não podemos acusar o intolerante de agir apenas movido pelos
sentimentos, quando se trata de guerras ideológicas.
Deveríamos, então, considerar justa a razão proclamada pelos indivíduos
que agem por intolerância? Por isso que atitudes bárbaras encontram
defensores racionais?
O mestre firma os olhos no jovem e diz:
- Você me perguntou “O que é a intolerância?”.
E eu respondi: - É uma característica da humanidade.
Há muito que padecemos deste mal - a incapacidade de nos reconhecermos
no “outro” e respeitá-lo. Isso é, sem sombra de dúvida, um gerador da
intolerância.
As sociedades humanas passaram por transformações substanciais, mas
estas não extinguiram o preconceito nem a intolerância. A intolerância
está presente no cotidiano dos indivíduos: no âmbito do espaço
doméstico, nos locais do trabalho, nos espaços públicos e privados. Ela
assume formas sutis de violência simbólica e manifestações extremas de
ódio, envolvendo todas as esferas das relações humanas. Muitas vezes nos
surpreendemos ao descobrir a nossa própria intolerância.
O jovem pensa, pensa e então pergunta:
- Mas, quem decide quando este ou aquele indivíduo, religião ou
coletividade não pode ser tolerada? Em nossa sociedade onde os
interesses se contrapõem, mesmo o mais ferrenho defensor da liberdade de
expressão pode se ver diante de circunstâncias que a questione.
Por exemplo, é possível tolerar a liberdade de expressão quando se ataca
a religião e os bons costumes?
Imaginando uma sociedade democrática, é possível tolerar a liberdade de
expressão para aqueles que colocam em risco a democracia?
Podemos, em nome da tolerância, admitir a livre expressão de literatura
de cunho racista e preconceituoso?
É possível tolerar culturas que cometam atentados aos direitos humanos
em nome do respeito ao multiculturalismo?
Afinal, mestre, qual o limite entre a tolerância e a intolerância?
Estas suas questões demonstram a complexidade do tema - fala o mestre. A
lei civil trata de proteger os indivíduos e coletividades em relação aos
abusos da liberdade de expressão. A construção de uma sociedade
fundamentada em valores que fortaleçam a tolerância mútua exige o
combate a todos os tipos de intolerância. Por outro lado, a tolerância
pressupõe a intransigência diante das formas de intolerância.
Em resumo: o combate à intolerância exige uma atitude de tolerância, mas
também de intolerância - quando esta se faz necessária.
(Texto apresentado no Retiro de Oração com Frei Betto, em maio 2008 -
Tema “Intolerância”)
(07 de junho/2007)
CooJornal no 584
LUIZ CARLOS GUEDES
professor, jornalista, radialista.
Editor do caderno Negócios, Agroindústria e Tecnologia do jornal A Tribuna
e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br