07/06/2007
Número - 584


ARQUIVO
LUIZ CARLOS GUEDES


 
Luiz Carlos Guedes

 

IntolerÂncia
 

Um jovem procura seu mestre e pergunta:
- Mestre, como separar o sentimento de intolerância da tolerância?

Ora, meu filho - responde o mestre - intolerância é o ódio sistemático e de agressividade irracional em relação a indivíduos devido à sua maneira de ser, a seu estilo de vida e às suas crenças e convicções.

Mas, mestre - intervém o jovem - em meio à crueldade e barbárie resultante de intolerâncias mútuas, há sopros de convivência pacífica fundada no respeito e tolerância.

É verdade - disse o mestre - é como se, por todos os séculos, esse nosso mundo tivesse sido percorrido por sopros de intolerância, esperança e desespero, todos juntos. No entanto, tenha em mente que a intolerância carrega em si a necessidade da eliminação seja física, moral ou espiritual do seu oponente. Se ainda houvesse inquisição, a intolerância do inquisidor levada ao limite, condenaria à fogueira o próprio Cristo.
É um ódio fundamentado na razão, na desculpa justificada. O fanático manifesta sua intolerância como se esta fosse uma necessidade racional em prol de objetivos humanitários, fundamentando seu discurso justificador das atrocidades cometidas em nome da humanidade.

Diz o jovem:
- Entendo que a intolerância ultrapassa os limites da racionalidade e, assim, não podemos acusar o intolerante de agir apenas movido pelos sentimentos, quando se trata de guerras ideológicas.
Deveríamos, então, considerar justa a razão proclamada pelos indivíduos que agem por intolerância? Por isso que atitudes bárbaras encontram defensores racionais?

O mestre firma os olhos no jovem e diz:
- Você me perguntou “O que é a intolerância?”.
E eu respondi: - É uma característica da humanidade.
Há muito que padecemos deste mal - a incapacidade de nos reconhecermos no “outro” e respeitá-lo. Isso é, sem sombra de dúvida, um gerador da intolerância.
As sociedades humanas passaram por transformações substanciais, mas estas não extinguiram o preconceito nem a intolerância. A intolerância está presente no cotidiano dos indivíduos: no âmbito do espaço doméstico, nos locais do trabalho, nos espaços públicos e privados. Ela assume formas sutis de violência simbólica e manifestações extremas de ódio, envolvendo todas as esferas das relações humanas. Muitas vezes nos surpreendemos ao descobrir a nossa própria intolerância.

O jovem pensa, pensa e então pergunta:
- Mas, quem decide quando este ou aquele indivíduo, religião ou coletividade não pode ser tolerada? Em nossa sociedade onde os interesses se contrapõem, mesmo o mais ferrenho defensor da liberdade de expressão pode se ver diante de circunstâncias que a questione.
Por exemplo, é possível tolerar a liberdade de expressão quando se ataca a religião e os bons costumes?
Imaginando uma sociedade democrática, é possível tolerar a liberdade de expressão para aqueles que colocam em risco a democracia?
Podemos, em nome da tolerância, admitir a livre expressão de literatura de cunho racista e preconceituoso?
É possível tolerar culturas que cometam atentados aos direitos humanos em nome do respeito ao multiculturalismo?
Afinal, mestre, qual o limite entre a tolerância e a intolerância?

Estas suas questões demonstram a complexidade do tema - fala o mestre. A lei civil trata de proteger os indivíduos e coletividades em relação aos abusos da liberdade de expressão. A construção de uma sociedade fundamentada em valores que fortaleçam a tolerância mútua exige o combate a todos os tipos de intolerância. Por outro lado, a tolerância pressupõe a intransigência diante das formas de intolerância.
Em resumo: o combate à intolerância exige uma atitude de tolerância, mas também de intolerância - quando esta se faz necessária.



(Texto apresentado no Retiro de Oração com Frei Betto, em maio 2008 - Tema “Intolerância”)




(07 de junho/2007)
CooJornal no 584


LUIZ CARLOS GUEDES
professor, jornalista, radialista.
Editor do caderno Negócios, Agroindústria e Tecnologia do jornal A Tribuna
e editor do informativo eletrônico CooJornal e da revista eletrônica Rio Total.
guedes@coojornal.com.br