| Marcelo
Sguassábia
A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI
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Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o
Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi
o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha,
Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda
juram ouvir a algazarra no salão de jogos.
Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante,
ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o
pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas
filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde
suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas
de São João, na procissão do Divino.
Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem
ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha
matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no
rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço,
rogando forças não para manter a fortuna que tinha, mas para continuar
dando amparo à vila de colonos que dependia dela.
Os que hoje passam com pressa e indiferença em frente ao prédio de
blindex da Praça Armando Sales desconhecem o que se chorou e se riu
enquanto ali era um lar, com panelas no fogo e compotas na despensa,
lar que continuava lar de afeto e de aconchego a despeito da rica
mobília, das desavenças políticas, das pequenas intrigas que cercam
quem quer que habite uma mansão de vinte e oito cômodos.
Quem vê a agência bancária moderna, a dominar o quarteirão com todo o
aparato de segurança, provavelmente não testemunhou o ranger do portão
da frente, em madeira vermelha, que se abria com generosidade idêntica
para um mendigo ou para o Juscelino Kubitschek. Nem lembra do Dr.
Oscar a clinicar de graça ou recebendo porcos e galinhas em paga de
partos, na época em que seu consultório ocupava um dos quartos do
casarão.
No banco 24 horas, frio como moeda, já não se tem mais notícia da dama
lusa em trajes negros, Dona Lucina para uns e Mandinha para outros,
que há muito já estava na igreja enquanto a cidade dormia. A
portuguesa que veio dos Açores no século dezenove, jeito austero e
sotaque carregado mesmo após décadas de Brasil, só deixava a sua casa
pela casa de oração. E embora lá de cima a entristeça ver a estranha
metamorfose do cenário da sua vida, às vezes deve abandonar o cantinho
de céu a que teve direito para vagar por seus domínios demolidos,
zanzando entre um caixa e outro como se estivesse buscando empréstimo
para a colheita de café. Talvez ao ler este texto ralhasse por alguma
razão comigo, bisneto a quem nem conheceu. Mas ficar brava
definitivamente não era do seu feitio. Por maior que fosse a farra das
crianças no salão de jogos.
(27 de junho/2009)
CooJornal no 638
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
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