
10/10/2008
Ano 12 - Número 602

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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| Marcelo
Sguassábia
A QUEM INTERESSAR POSSA
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O plano de saúde Uniduni faz saber a todos os seus associados que
suspendeu a cobertura a transtornos digestivos de usuários que
praticam regularmente a caça ao pato de pena rajadinha, e que
porventura venham a digeri-la como refeição – seja o seu preparo
frito, cozido ou assado, ao molho pardo e a passarinho. É por demais
sabido que a carne do referido animal, arroxeada e de odor próximo ao
da lontra nórdica, costuma atacar enzimas pancreáticas vitais ao
processo de síntese proteica, acarretando cólicas incontroláveis. Além
disso, a assessoria de imprensa da empresa argumenta que os adeptos
dessa prática incorrem em ato ambientalmente condenável, portanto
passível de julgamento e punição pelas esferas competentes, salvo nos
meses em que a caça ao pato de pena rajadinha é permitida e
regulamentada pelas normas dos nossos bosques e parques florestais. Na
ocasião, o plano Uniduni comunicou oficialmente o lançamento do
produto Salamê Mingüê, modalidade de assistência médica criada
especialmente para a faixa etária de 0 a 4,8 anos.
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A fábrica de encordoamentos de nylon para bandolim “Irmão & Irmão”
esclarece que o recall a que procedeu recentemente teve sua validade
estendida até junho do próximo ano, devido ao fato de apenas 37,6% dos
compradores dos lotes danificados terem procurado o Serviço de
Atendimento ao Cliente para efetuar a troca do produto. O recall se
deu após os laboratórios da empresa detectarem, em testes de
resistência e fadiga de matéria-prima, um defeito de fabricação na
corda Mi, que poderia provocar calejamento precoce nos dedos
indicadores esquerdos dos bandolinistas. Em sendo o bandolinista
também médico urologista, o defeito apontado causaria ainda perda de
sensibilidade do dedo na execução de exames de toque, gerando falsos
resultados positivos e negativos nas investigações de anomalias
malignas na próstata de seus respectivos pacientes.
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“Não há motivo para pânico”. Assim reagiu o diretor para assuntos
comunitários da Prefeitura ao ser indagado sobre as manifestações
populares decorrentes da súbita mudança do fornecedor de saquinhos de
balas da bombonière do nosso glorioso Teatro Municipal. O alvoroço se
deu após um grupo de freqüentadores daquela casa de cultura se dirigir
até a redação do nosso jornal para um protesto, onde em uníssono
alegavam que a troca de fornecedor – ocorrida sem concorrência pública
– ocasionou um nível de decibéis acima do costumeiro, quando da
manipulação dos saquinhos de guloseimas pelos espectadores, o que
prejudicaria seriamente o entendimento dos diálogos travados pelos
atores no palco. Um dos cidadãos presentes acrescentou que o problema
não se restringia aos diálogos, mas também – e sobretudo – aos
monólogos. Após a denúncia à imprensa, o grupo, munido de faixas,
partiu para um amassamento coletivo de saquinhos à frente da
residência do secretário municipal de cultura, que com o barulho
ensurdecedor não conseguiu mais conciliar sono. “A um bom
administrador não pode faltar a coragem de admitir o erro e voltar
atrás”, concluiu a insone autoridade, prometendo à reportagem d’A
Notícia firmar novo contrato de fornecimento com o antigo fornecedor,
denominado Papelucho Artigos de Papel e Papelão ME.
(10 de outubro/2008)
CooJornal no 602
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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