Marcelo
Sguassábia
A RÚCULA E SUAS DESCONHECIDAS
PROPRIEDADES
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Parcela do IPVA, água, luz, telefone,
escola.
Podia muito bem pagar por internet,
caixa eletrônico, débito automático. Mas não confiava em nada disso,
gostava mesmo da autenticação mecânica. Ali, preto no branco. Vai
que amanhã dá pau geral no sistema, como provar que tá pago?
Pra falar a verdade, nem queria que a
fila andasse. Tinha hora no dentista daí a 40 minutos. E sair de um
suplício para outro era demais. Um sacrifício pede recompensa, e não
mais sacrifício. Boca aberta ao torturante motorzinho, boquiaberto
com o buraco no orçamento. Não, não. Ligaria pro consultório,
desmarcando.
O saco sem fundo de trabalhar pra
ganhar, ganhar pra pagar as contas, pagar as contas pra continuar na
estatística dos economicamente ativos. E assim sucessivamente – do
mesmo jeito será com seu filho e destino igual terá seu neto, se até
lá esse mundinho não explodir numa hecatombe.
Ontem tinha ido almoçar com a Débora.
Como sabia esnobá-lo, a cachorra. Ô Débora desalmada. Deixa estar
que ainda me vingo, ele pensou. E a vingança veio a cavalo, naquele
safado PF de padaria. Arroz, feijão, batata souté, salada de tomate
e... rúcula.
Sentados à mesa, ela aciona o seu mais
radiante sorriso em direção ao carinha da mesa ao lado. Foi quando
se deu o desastre: aquele tiquinho de rúcula entre os alvíssimos
incisivos. Quanto mais metida e insinuante a darling se
mostrava, mais a verdura tornava bizarra aquela diva de subúrbio.
Era nojento, constrangedor, hilariante. E a Deborazinha se achando.
Ele regozijava-se intimamente com
aqueles míseros milímetros quadrados de rúcula, cujo poder de
destruição ecoava por toda a Panificadora Doce Mel.
Contou: 28 à sua frente, sendo 7
office-boys. Aquelas caras de segunda-feira, mesmo sendo uma quinta
que anuncia a sexta que traria o redentor fim de semana.
Se estudasse direitinho não estaria ali
e não seria o que era. Esse ser de cera, dez horas por dia com o
traseiro soldado a uma poltrona de escritório sem apoio para os
braços. Essa previdente figura que não sai de casa sem guarda-chuva
e talões de zona azul.
A cordinha de nylon a balizar a fila.
Em todas as filas, de todos os bancos, a mesma cordinha e o mesmo
dim-dom anunciando o caixa livre. Um passo à frente.
Olhou para o cartaz, na parede próxima
ao subgerente. Um casal, dois filhos e um cão de guarda simpático,
todos transbordando de felicidade graças ao seguro de vida que, além
de cobrir morte, invalidez permanente e renda cessante, ainda
oferece sorteios mensais de casas, carros e notebooks com
processador Pentium 4 e monitor de cristal líquido.
De novo a imagem da Débora, com sua
carruagem transformada em abóbora ao meio-dia. Foi-se o encanto, seu
sapatinho de cristal virou pantufa de palhaço. A Débora a quem a
rúcula tornou ridícula.
Olha no crachá da moça: outra Débora.
Ela diz “pois não” sorrindo. E sem rúcula nos dentes.
(05 de agosto/2006)
CooJornal no 488
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com