Marcelo
Sguassábia
ENSEBADO |
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Troco numa boa mil megastores de livros
novos com cybercafés por um sebo mal arrumado e labirintuoso. Daqueles
encravados nos centrões das metrópoles, com as paredes caindo aos
pedaços como os volumes que abrigam. Até meados dos 80, nos sebos a
gente só encontrava livros e revistas. Hoje tem vinis, CDs, fitas de
vídeo e até DVDs. Muitos têm brinquedos usados, jogos de tabuleiro,
vitrolas. Outros dividem espaço com brechó. Mas sempre sebos, honestos
sebos, sem nenhum vendedor chato querendo te empurrar os últimos
lançamentos.
O que freqüento é muito grande. Pra dar uma espiada rápida em tudo vai
pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido
galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas
duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis
pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.
Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito
tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o
freqüentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e
não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está
atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou
levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.
O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra
escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos
volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação
fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois
acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.
Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria,
de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As
ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista.
“Senhorita, por favor, me liga no 36”. Parece morador de prédio
falando no interfone com o porteiro.
Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter
sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que
passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o
emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio
a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora
aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde
estará?
Não raramente se encontra, como marcador de página, algo
devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu
“Sagarana” de sebo:
“Tiago querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa
que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar.
Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”
Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que
aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos,
onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Tiago pra
virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro,
dias depois.
Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com
anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas
manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão?
Se não dá pra imaginar o antigo dono do livro, que dizer da origem da
mancha.
Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma
coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro.
Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático
e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com
portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o
estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você
escolhe, compra e entregam em casa.
Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros
e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e
outro que pincei um VHS de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme
estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica
verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu
uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar,
onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala
a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for
alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela
internet.
(07 de outubro/2006)
CooJornal no 497
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com