Marcelo
Sguassábia
Angu à moda de Dali |
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Ah,
como foi fácil abrir os olhos, ficar de joelhos e estalar artelhos
dentro da redoma. Quis um cafuné despido de razão para comer com pão
no café da manhã. Mas não estava são, como nunca estarei. Apenas
maldizia em compasso de espera.
A cara metade a léguas daqui. A cara metida em downloads de lá. Entra
o descanso de tela, despluga o fio de raciocínio que coitadinho se
insinua a vir a ser alguma coisa. Vou escrevendo sem mãos a medir nem
pés a amparar, mesmo sabendo que nada restará que se aproveite, exceto
o jasmim exalado de uma ou outra consoante. Branca, linda, sem serifas
que machuquem. Cai flutuando no texto e deixa-se ficar. Que nada,
quimera, que sina, pintassilgos de resina nessa piscina de esperanto.
Regrido pros idos da pedra lascada, desvãos, lodos e escaninhos por
toda a inadequada geografia. Acesso de riso à entrada da estrada
lacrada com pasta de amendoim e raspas de misericórdia. Mas de repente
tudo passa a destoar de Dostoievski. Cubro com a mortalha o corpo da
vida. Pois é, nem deu tempo de avisar todo mundo, mas o fato é que a
vida acabou de morrer com um terno sorriso nos lábios. Incensa e
chora, lamenta e geme que ela já era. Espana, gira em falso. Espanha,
falsos Mirós. Vejo carradas de mouses de esgoto a farejarem rotos e a
soltarem arrotos sobre outros ratos. Enquanto isso, há milhares de
lousas à espera dos gizes e mulheres lusas ainda quentes, moídas por
engano na bacalhoada. Uma soneca no vinco do teu jeans, sob o embalo
cômodo de Brothers in Arms. Sem mais delongas, estimo melhoras.
(21 de outubro/2006)
CooJornal no 499
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com