Marcelo
Sguassábia
MANIFESTO PELA VOLTA DO TEMPO |
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O sujeito que assina este
mal-arrumado libelo, em nome de toda a humanidade (à exceção talvez
dos anciãos com mais de 100, cheios de saúde e paradoxalmente fartos
de viver), vem a público exigir que o tempo volte o mais rápido que
puder. E que fique claro que não me refiro à volta no tempo; o que
reivindico é o retorno do próprio tempo, calmo e humilde, à vida das
pessoas.
É espantoso como tudo, há uns poucos anos, levava muito mais tempo
para ser feito. E quanto mais vagaroso era o processo, mais tempo,
estranhamente, sobrava pro cidadão.
Criava-se o porco no quintal. Matava-se o bicho. Jogava-se água
fervente sobre o pêlo, a ser raspado na navalha. Abria-se a barrigada,
separava-se as partes, temperava-se e deixava-se da noite para o dia
mergulhado em marinada. Providenciava-se a lenha, acendia-se o fogo,
cozinhava-se lentamente e degustava-se mais lentamente ainda. Era um
tempo de sobra que não acabava nunca mais, de enjoar de fazer nada. De
botar cadeira na calçada, chamar o vizinho pra uma breja e fomentar o
diz-que-diz-que. O tempo era artigo barato, era preciso arrumar um
jeito de se livrar dele. De matá-lo de alguma forma antes que ele
matasse a todos de tédio. Tempo havia para debruçar na janela, jogar
paciência, montar quebra-cabeça. Fazia-se a sesta, lia-se pela
satisfação de ler, não pela urgência de manter-se up-to-date.
Voltando à feijoada, dessa vez à rala, insípida e inodora versão de
hoje – em lata e aquecida no microondas. Não presta-se atenção no que
se está comendo, pois no tempo em que se engole a gororoba ao molho de
flavorizantes vê-se a TV, atende-se ao celular, confere-se o extrato,
pensa-se nos termos do relatório a ser entregue o mais tardar às
12h30. E são 12h20, meu Deus do céu.
Se aqui é assim, imagine lá, do outro lado do mundo. Valorizar o tempo
é com os japoneses. Ninguém tem know-how mais apurado. Por algum
mecanismo ancestral, sabem os nipônicos desde tenra idade que tempo é
recurso não-renovável, e conseqüentemente precisam consumi-lo da mais
produtiva maneira. Lá na placenta, enquanto espera ficar pronto pra
vir ao mundo, o japonesinho deve aproveitar o líquido amniótico pra
cultivar algum legume hidropônico. Ou já reserva aquela água que o
rodeia pra abrir sua lavanderia quando nascer. Talvez ache oportuno
estudar a anatomia da mãe e já ir se afiando para o vestibular. Pelo
menos não vai zerar em biologia...
Melhor ainda que voltar, amigo tempo, seria ver você parado. Isso
mesmo. Nem correr, nem andar, nem se arrastar. Simplesmente parar,
perder a função de tempo e eternizar-nos a todos.
E vamos ficar por aqui, porque o tempo do leitor é curto e seria uma
lástima continuar a desperdiçá-lo. Ainda mais comigo.
(25 de novembro/2006)
CooJornal no 504
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com