Marcelo
Sguassábia
MORTOS DE
RIR
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O Willy não precisava ter
ido tão cedo. Não precisava mesmo. Uma desatenção nossa e olha ele aí,
finado. Ainda se tivesse procurado o fim – tomado veneno de rato, dado
um tiro na têmpora, um enforcamentozinho. Mas assim, pego de surpresa,
ver-se defunto da noite pro dia e a contragosto, não deve ter sido
fácil.
Bom Willy, tão viciado em vida e de repente nessa situação. Em quase
todas as sepulturas do cemitério, a estrelinha e a cruz, a data da
morte e o dia do nascimento. Com estrela você combina, mas cruz não é
o seu estilo.
Prometo que, tão logo o padre encomende sua carcaça, cairei fora desse
latifúndio de esqueletos e entrarei no bar mais próximo para beber à
nossa saúde. À minha aqui embaixo e à sua aí em cima, seu desalmado.
Embora beba quase nunca, farei isso por você.
Aguardo, sua besta, você numa noite dessas pra me puxar as pernas,
fazendo gracejo das coisas sagradas. O céu nunca mais será o mesmo
depois da chegada de “Aero Willy”, o querubim gozador. Tô até vendo
você tentando empurrar uma rifa pra cima de São Pedro ou convencendo
Santo Expedito a ser seu fiador numa confortável nuvem de dois
dormitórios.
Quero que fique em relevo no mármore branco e no granito preto desses
túmulos um pouco dos melhores momentos que tivemos. Um dia, querendo
ou não, a vida vai me mover um processo de desapropriação e virei
também morar por essas bandas. Seremos vizinhos de novo, como éramos
de rua.
Agora é essa serra azulada circundando o campo santo. Deixar você
assim desamparado, no meio de tão desanimadas companhias, é de cortar
o coração. Sinto um espírito me soprando ao ouvido: “escreve aí no seu
texto pra cuidarem mais da gente. Só lembram que a gente existe dia 2
de novembro, isso é uma desumanidade”. É justo. Inexistente também
existe. Não é porque morreu que deixou de merecer consideração.
Assim como os vermes daqui a uns dias avançarão com menos apetite
sobre os seus restos, as lembranças suas também irão perdendo o brilho
e a nitidez, sei disso. Sei do inevitável disso. E deixo subirem à
mente as pipas todas que soltamos e milhões de bolhas de sabão, da
época em que a gente tinha o tamanho dos anjinhos tocadores de
trombeta, iguais a esses da tumba aqui do lado.
- Acorda aí, palhaço. Que cara de sonso é essa...
- Willy, é você? Eu tava sonhando ou é você que veio me buscar?
- Dá um cigarro, vai. Anda.
- Tá, mas primeiro me conta o que é que está acontecendo.
- Calma, tudo a seu tempo. E tempo a gente tem de sobra daqui pra
frente.
Caímos na gargalhada. Acesso de riso no cemitério, coisa mais sem
cabimento. Rimos tanto que apagamos as velas com as nossas risadas. Ao
fundo, a trilha de Nino Rota para “Oito e Meio”. O coveiro passa por
nós, mede a dupla de cima a baixo e faz um “tsc-tsc” de desaprovação.
(02 de dezembro/2006)
CooJornal no 505
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com