Marcelo
Sguassábia
ATA DA ASSEMBLÉIA ORDINÁRIA
DO EDIFÍCIO ILHA DA
GAIVOTA
|
|
Primeira pauta: Assuntos Gerais.
Após os procedimentos iniciais de praxe, e contando com a presença de
39 dos condôminos, o Sr. Rodolfo, do apartamento 41, disse que tinha
uma queixa a fazer sobre o comportamento da Dona Maíra, do 42.
Segundo ele, ruídos denunciavam práticas diárias de foro íntimo por
volta das 21h45, sendo o range-range de sua cama uma afronta aos bons
costumes. Indignada, Dona Maíra esclareceu não tratar-se de suposta
sem-vergonhice, mas dos exercícios abdominais e de flexão que é
obrigada a fazer todas as noites, por indicação médica. E que mesmo
que se tratasse da alegada prática, estaria em seu direito e não seria
da conta de ninguém o que fizesse ou deixasse de fazer entre as quatro
paredes do seu apartamento.
Nesse momento, Dr. Élcio, do 74, pediu a palavra dizendo que a falta
de isolamento acústico se deve ao fato do prédio ter sido construído
com tijolos baianos, motivo pelo qual era capaz de escutar até a reza
da Dona Biloca, sua vizinha do 73. Complementou seu aparte afirmando
que, quando quer manter intimidade com a esposa, tem de ligar o
aparelho de som no último volume para abafar os naturais ruídos da
conjunção carnal.
Isto posto, foi dada a vez à senhorita Elza, proprietária do
apartamento 62, que sugeriu à assembléia a mudança do nome do
edifício, já que o mesmo não é uma ilha e muito menos abriga gaivotas.
Diante do exposto, o presidente da assembléia interrogou a moradora,
dizendo se ela não tinha mais o que fazer, observação que provocou
palmas em alguns dos presentes e gargalhadas em outros.
Em seguida, o subsíndico introduziu a segunda pauta da reunião:
formação de fundo de reserva para a compra de apetrechos natalinos e
figuras de presépio para o Natal.
Seu Luiz, do 51, 1º Secretário que acumula a função de tesoureiro,
apresentou orçamento de três reis magos, mas recomendou a compra de
apenas um, por medida de economia. Referiu-se ainda a um Baltazar em
oferta num camelô da Rua Duque, e que a compra do mago de biscuit dava
direito a um carneirinho de manjedoura grátis. Trêmula e demonstrando
não estar de posse de seu juízo perfeito, Dona Geni do 36 foi taxativa
ao afirmar que deixaria de pagar o condomínio caso não se adquirisse
também uma ou duas vaquinhas malhadas, para fazer companhia ao
carneiro junto ao bercinho do Menino-Deus.
Após acalorada discussão, a maioria dos presentes decidiu que o fundo
de reserva arcaria com um presepinho básico e uma fiada de piscas de
200 lâmpadas para ornar a guarita, o qual seria ligado às 20 horas e
desligado às 2 da manhã.
Prosseguindo, Dona Carla, moradora do 93, propôs a compra de um novo
gira-gira para usufruto do pequeno Rafa, seu filho. Dona Albina,
proprietária do 131, disse que “pequeno” era um eufemismo, dada a
circunferência avantajada do menino e dos seus 82 quilos capazes de
abalar a estrutura de qualquer gira-gira do planeta e arredores,
segundo palavras da mesma. O Sr. Eduardo, do 22, argumentou que o
gira-gira em questão já era o sexto a ter seu eixo entortado pelo
robusto petiz. Ficou decidido solicitar ao Dr. Benício, engenheiro
mecânico e morador do 114, um cálculo para determinar a estrutura
necessária ao eixo, considerando-se as forças centrífuga e centrípeta
versus o peso do garoto.
Procedeu-se então à eleição do novo síndico. De imediato o Sr.
Waldemar lançou-se candidato à reeleição, argumentando que ao síndico
assiste o direito de não pagar a taxa condominial e que, se não
permanecesse no cargo, passaria à condição de inadimplente por não ter
como honrar a referida taxa, o que seria pior para o condomínio.
Assim, todos assentiram que o Sr. Waldemar prossiga em suas funções
pelos próximos dois anos.
Tomada a deliberação, o Sr. Maurício do 173 cobrou do síndico a
prestação de contas referente ao último exercício, ao que o Sr.
Waldemar se esquivou, dizendo que precisaria de um apartamento inteiro
e vago para guardar todas as notas e recibos da contabilidade predial.
Não satisfeito com o argumento, o proprietário do 173 ameaçou o
síndico com o dedo em riste, dizendo “ah, isso não vai ficar assim
não”. Seguiram-se outros insultos até chegarem às vias de fato,
aplicando-se mutuamente sopapos, bofetes, voadoras e outros golpes de
natureza semelhante, o que obrigou à convocação de nova assembléia de
condôminos, em data ainda a ser determinada.
(23 de dezembro/2006)
CooJornal no 508
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com