Marcelo
Sguassábia
FAZENDO JUSTIÇA A IGNÁCIO ESCORBETA
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Existem vultos injustamente esquecidos pela história, não obstante sua
farta contribuição ao progresso da humanidade e ao bem-estar social.
Dessa malfadada classe faz parte Ignácio Escorbeta, inventor da
serpentina carnavalesca e do prendedor de roupas.
A serpentina foi concebida por Ignácio na segunda metade do século 19,
a quatro mãos com outro Escorbeta, um primo residente em Mossoró.
Desenvolvido o protótipo, de 75 metros de comprimento por 6 cm de
largura, Ignácio arregimentou a mulher, os filhos e vizinhos e forjou
uma folia doméstica, sem música alguma para animar. Enquanto lançava
os rolos da recém-nascida invenção sobre os saltitantes convivas,
observou que em 100% dos casos os mesmos não se desenrolavam, sendo
arremessados intactos sobre as cabeças das vítimas.
Escorbeta atribuiu o fiasco à excessiva dimensão dos "rolinhos", que
mais pareciam bobinas. Perseverante, voltou com ânimo redobrado ao
laboratório.
Após meses de pesquisas e cálculos de resistência, Ignácio finalmente
brindava o mundo com a serpentina na forma como a conhecemos hoje. Em
comemoração o bairro todo foi saudá-lo com uma chuva de confetes, já
inventado naquela época - daí se originando a dobradinha que tanto
abrilhanta os festejos de momo.
Igualmente complexo foi o processo de criação do prendedor de roupas,
outro prodígio de Escorbeta. A bem da verdade esse artefato já
existia, com a finalidade de manter fechadas as embalagens de Cheetos
na despensa. Coube ao nosso herói o lampejo de adaptá-lo a outro
contexto. O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa,
apenas a indiciava em inquérito. Somente as peças mais leves, como
meias, cuecas, calcinhas e camisetas regata ficavam devidamente
suspensas para secagem. O inconveniente foi sanado dobrando-se o
número de espirais do arame que unia as duas partes de madeira do
prendedor, garantindo assim maior poder de fixação. Os bons resultados
não tardaram a aparecer. Maravilhado, Escorbeta foi às lágrimas ao
constatar que seu invento prendia eficazmente qualquer tipo de roupa.
Incluindo blazers, japonas, sobretudos e até vestidos de noiva.
Enquanto isso, do outro lado do mundo uma nova revolução se
processava. Cansado de prender as roupas para secar em encostos de
cadeiras, Vladislav Varal, um tcheco naturalizado belga, decidiu
inventar algo mais prático. Mas isso pede um outra crônica.
(30 de dezembro/2006)
CooJornal no 509
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com