Marcelo
Sguassábia
RAINDROPS
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A
chuva mansa e criadeira me levou em correnteza à releitura de Herman
Hesse, Machado e Florbela Espanca. Às vezes em pingos fortes,
açoitando minhas janelas, chegava lembrando o medo das cucas e
lobisomens, sentimento adormecido desde a época em que os lobisomens e
as cucas existiam aqui de fato.
Serena mas decidida, faz serviço caprichoso de empenar as madeiras,
traga os barcos de papel e os de verdade, encharca por onde passa.
Tinge de musgo as pedras, provoca o estrago que quer. Perseverante,
dura bem mais que os dois volumes capa-dura do Machado, do meu
“Sidarta” já em frangalhos e da fininha antologia da Florbela. Finda a
faina literária, me faz separar as roupas em uso das que não servem,
erguer castelos de cartas, deletar e-mails lidos e um mundo de outras
tarefas que jamais levaria adiante se sol houvesse, por tímido que
fosse.
O chumbo do céu chuvoso, convite mais que aceitável ao nada pra se
fazer. Céu que me ilha e me avisa que é inútil tentar sair, tão cedo
não irá ceder esse concerto de trovões. E dá-lhe água despencando.
Fechadas as portas que dão pra fora, a chuva me ordena a olhar pra
dentro, para o que havia de seco e há muito pedia uma rega farta e
recompensadora. Ao longo desses dias tão iguais, ela foi moldando
minha carcaça no aconchego da poltrona, me trouxe de volta ao piano
que há anos nem abria. E reparei naquele Mi desafinado desde nem sei
quando. A chuva que também é uma nota só e que marcou novembro em
Andante Cantabile, atravessou dezembro em Allegro Moderato e ao, que
tudo indica, encerrará janeiro em Presto Molto Vivace.
De garoa a tempestade, a chuva me botou em posição de lótus, com a
espinha ereta e o coração tranqüilo como o Walter Franco naquele disco
anos 70, a Revolver fantasmas. Me deixou menos urbano e instalou
narina adentro o pasto e o estrume de vaca, mais raros e intraduzíveis
que o mais fino dos Chanel. A chuva tem sido tamanha que borra as
letras dos livros mofando nessas estantes. Não autorizou a fazer nada
do que havia planejado, mas me mostrou que as urgências não eram assim
tão urgentes. Que espera é maturação, que tempo tinha de haver pra
escutar sua cantilena.
Deito, durmo e sonho aos pingos, enfronhado nos torós. Enquanto os
móveis de casa bóiam na enchente insana, eu vazo por todos os poros,
choro água da borrasca, viro bica como tudo à minha volta.
E o barulho da chuva, que me trouxe o pesadelo, é o mesmo que me
desperta. Vejo o bolor nos rejuntes e cogumelos multicores fermentando
no quintal. Ela, que impacienta as crianças e apascenta os velhos. A
chuva que cai sobre os recém-defuntos, coada por 7 palmos de terra.
Criando adubo, abrindo poças e transbordando poços nas chácaras que se
estendem pra além do alcance da vista. A chuva que não pára e que,
reinando feito déspota, quer que o assunto seja ela e nada mais.
(13 de janeiro/2007)
CooJornal no 511
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com