Marcelo
Sguassábia
OUT DO ORKUT
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O
nome "Orkut" pra mim remetia a nave russa, fria, orbitando no
ciberespaço. Até que sábado passado resolvi me embrenhar, timidamente,
por esse cipoal de relacionamentos. E vi que de frio o orkut não tem
nada. O orkut é quente. O orkut pega fogo.
Entrei com o login da minha filha, pois ninguém me convidou pra ser um
orkutiano (nem ela!). Claro, o que um tiozinho – no caso, um paizinho
- vai estar fazendo por lá?
Comecei a procurar amigos de infância e de adolescência, hoje todos na
casa dos 40. E percebi que eles estão no orkut, sim, mas como eu: não
como membros. Os membros são seus filhos, e meus amigos aparecem como
pano de fundo em fotos de festas de aniversário, férias, formaturas.
Isso quando aparecem, já que muitas vezes são eles quem batem as
fotos...
Evidente que o orkut não é um lugar só de teens. Meu tio Jairo tem
quase 80 e está lá. Se há alguém que dá bola pra ele, já é uma outra
história. Mas jogou sua garrafinha naquele mar, como que dizendo "não
estou por fora disso, não".
Na São João do Tio Jairo, todo o cosmo cabia na pracinha da cidade. O
orkut da época conectava gente em carne e osso, com hora marcada para
os encontros: domingo, depois da missa. O on line era tête-à-tête,
olhando nos olhos, sentindo o perfume e o hálito, sussurrando ao
ouvido.
Tudo muito mais humano, mas também mais limitado. O sujeito crescia
com aquela meia dúzia de amigos e depois do "colegial" ia pra cidade
grande fazer faculdade. Voltava uns anos depois pra terrinha, decidido
a montar clínica, comércio ou escritório. Pra mais tarde casar,
procriar e trabalhar com afinco para dar o melhor aos seus meninos.
Com o orkut, as possibilidades de conhecer novas pessoas se
multiplicam em progressão geométrica, ainda que essas pessoas se façam
ciberpresentes maquiadas pelo photoshop e se definam invariavelmente
como inteligentes, bonitas, carinhosas, compreensivas e extrovertidas.
Mesmo que não busque exatamente informação, um jovem no orkut é um ser
antenado, sabe o que se passa à sua volta. Diferente de mim, que só
vim a saber que havia uma ditadura em curso aos 19 anos, na
Universidade (nasci em 64, uma semana antes da "gloriosa"). Como
ninguém falava abertamente nisso, o anti-estado de direito parecia,
aos mais jovens, a ordem natural das coisas. Sou da geração Coca-Cola,
a perdida, sem bandeira ou ideologia. Filho dos anos de chumbo, usava
crachazinho verde e amarelo na Semana da Pátria. Os militares eram
presidentes porque os presidentes eram naturalmente militares. E
pronto.
Sorte dos novos, que com o orkut e outros bichos estão a salvo dos
embustes que eu e meus amigos quarentões tivemos de engolir.
Viva o orkut. Ainda que viver seja estar no mundo em forma de pixels e
bites.
(27 de janeiro/2007)
CooJornal no 513
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.e-tcetera.blogspot.com