Marcelo
Sguassábia
INVISÍVEL, MA NON TROPPO |
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Não me pergunte como nem por quê. O fato é que ele se viu investido,
de uma hora pra outra, do dom da invisibilidade. O que o transformou
instantaneamente no mais poderoso e bem-aventurado dos seres vivos,
dali das adjacências aos confins da Via-Láctea. Mas não quis fazer
alarde da nova condição – mesmo porque alguém invisível é capaz de
tudo, menos de fazer alarde. Em frente ao espelho que não o refletia,
começou a planejar cautelosamente o partido que tiraria da insólita
faculdade. E enquanto ia escovando os dentes que ninguém veria,
algumas alternativas aos poucos se apresentavam.
Poderia ver o que Bush trama às escondidas em seu rancho no Texas.
Assistiria aos meandros secretos das licitações públicas e saberia de
antemão seus nem sempre lícitos resultados. Poderia ver João Gilberto
em seu indevassável apartamento no Leblon, deitado de pijama no sofá e
fazendo ao violão um acorde em fá sustenido com sétima diminuta.
Testemunharia os TOCs mais secretos do Roberto Carlos e seus rituais
supersticiosos, da alcova à sala de estar. Descobriria se o Silvio
Santos é ou não careca, desejo dos desejos de 11 entre 10 colegas de
trabalho e fregueses do Baú.
Pra não estragar o encanto da brincadeira, trataria de ser seletivo.
Não entraria em todos os provadores, vestiários e banheiros femininos:
apenas nos mais bem freqüentados. Conheceria segredos de Estado
guardados a sete chaves, e teria o poder de desencadear guerras e
forçar armistícios. Acabaria com a fome no mundo, derrubaria a cotação
do petróleo, levaria canalhas ao xadrez. Tivesse um pouco mais de
ambição e já estaria invisivelmente instalado numa poltrona de
primeira classe, com destino ao paraíso que escolhesse. Acompanharia
de camarote os deslizes do chefe e o chantagearia pelo prazer de vê-lo
sofrer, não para tirar proveito. Levar vantagem a troco de quê? Não
precisaria mais disso. Alcançaria por si só o que bem entendesse e
ainda assim não seria trapaceado nem invejado por ninguém, porque para
todos os efeitos não existiria. Teria as rédeas de tudo sem precisar
ao menos dar o ar da graça.
Acima dele só Deus, por sinal invisível também. E a megalomania da
invisibilidade trazia novas idéias. Invadiria os bastidores dos seus
ídolos. Faria parte da tripulação de ônibus espaciais. Imaginou-se
dentro de um carro forte, separando apenas as notas de 100. Mas pra
que se arriscar com dinheiro se poderia ir direto ao que ele é capaz
de comprar? Mania de se preocupar com os meios. Daqui pra frente só o
bem-bom, mel na chupeta e desfrute, pensou enquanto escanhoava o
imaginário queixo.
Tudo seria perfeito se qualquer dessas idéias o seduzisse de verdade.
No fundo, queria deleites mais sutis e menos previsíveis a alguém
naquele estado. Nada além do que palpitava no recato de sua aldeia,
mas que era negado aos olhos. Os pequenos pecados da vizinhança. O
nascedouro dos fuxicos. O cerne do inconfessável, o nunca dito e
exposto fora das quatro paredes.
Mas era tarde demais. Não pôde ver nada disso, pois 15 minutos depois
viu-se visível de novo.
(10 de março/2007)
CooJornal no 519
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com