Marcelo
Sguassábia
OS ABNEGADOS DA INTERNET |
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(A partir de um argumento sugerido por Humberto de Almeida)
Catastrofistas de plantão costumam classificar a internet como um
campo minado, com larápios e golpistas atocaiados atrás de cada bite.
Que injustiça. Basta abrir seus emails pra ver que a rede é, na
verdade, uma fonte inesgotável de felicidade, com infinitas
possibilidades de realização pessoal, profissional e financeira.

Vejam o caso da Ludivina Griffin, a boa e fraterna Ludivina Griffin.
Embora não recebendo nenhuma solicitação de minha parte, faz a fineza
de enviar-me ofertas de Valium, Cialis e Propecia com preços realmente
tentadores. É o que chamo de fazer o bem sem olhar a quem, zelando
pela saúde do próximo – ainda que o próximo esteja tão distante. Pense
bem: quem sou eu para Rozzela Morgan, Carmon Montgomery, Cristel
Garcia, Paul Jurgensen, só para citar alguns dentre os muitos que me
mandam as promoções farmacológicas? No entanto eles empenham seu tempo
e seus esforços no afã de dividir comigo as barbadas, descontos e
negociações que arduamente devem travar com os laboratórios. Isso é o
que eu chamo de magnanimidade e desprendimento.
A prosperidade chega arrombando minha caixa de mensagens. Boas novas
pululam descontroladamente no meu outlook. Pelo menos 3 vezes por
semana, Shawn Splanger me avisa que ganhei o primeiro prêmio na
loteria do Reino Unido. Coisa de 15 milhões de euros. Basta clicar num
link para ter acesso às instruções de como receber o que me é de
direito. Só não fiz isso ainda porque estou esperando acumular vários
prêmios, pra receber tudo de uma vez só. A uma média de 3 por semana,
são 12 ao mês. Nem o ex-deputado João Alves teve tanta sorte assim.
Já Abraham Hani, Malawki Alli e Vincent Agnos insistem em me
locupletar com quantias que variam de 7 a 30 milhões de dólares
americanos. Se apresentam como Diretores do BOA (Bank of Africa) e
falam que o montante refere-se a uma aplicação bancária em nome de um
sujeito que morreu, junto com a mulher e a filha única, num desastre
de avião no Alaska. Eu embolsaria 30% da dinheirama, desde que
concordasse em ceder minha conta corrente para uma triangulação.
Thomas James é outro remetente incansável de ofertas dessa natureza.
Seu mais recente email solicitava minha intercessão urgente, para
tratar de assuntos relativos a U$ 10.000.000,00.
Não poderia deixar de mencionar Florência Taylor. Esta senhora
brinda-me, dia sim, dia não, com um farto manancial de livros
jurídicos para compra online, alguns deles versando sobre as
peculiaridades do código civil guatemalteco.
Pessoas altruístas como Erin Faulk, Shelby Hardy, Staci Ávila, com
suas propostas de participação societária, me provam que vale a pena
acreditar no ser humano, e que o mundo ainda é um lugar decente pra se
viver.
E que dizer de Judith Carlson, Chiang Lin, Robert Haltz? A vontade que
tenho é de reunir toda a turma para uma boa pândega de
confraternização, ocasião em que poderemos enfim nos conhecer
pessoalmente. Providenciaria uma lauta feijoada, caipirinha à vontade
e um karaokê de bossa-nova. Mas como abrigá-los todos em minha casa,
já que são tantos? Uma solução seria descontar um dos prêmios da
loteria britânica e comprar uma mansãozinha básica para a ocasião. É,
pode ser.
(24 de março/2007)
CooJornal no 521
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com