Marcelo
Sguassábia
SOBRE O LIVRO
QUE NÃO LI |
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Não, eu não li “O Caçador
de Pipas”. Nem lerei, prometo a ti e a mim mesmo. Devoraste vorazmente
teu volume, com um afinco pouco visto nesses anos todos em que estamos
juntos. Quaisquer quinze minutos entre uma tarefa e outra era
oportunidade de mergulho nessa história que não adivinho, embora
milhões já a tenham lido e outros milhões ainda a lerão.
Que armas afinal tem esse caçador para abater tanta gente ao mesmo
tempo? Sem dar chance de defesa, lá vai ele colecionando reféns em sua
irresistível emboscada. Por ele deixaste a comida queimando na panela,
a planta sem a rega costumeira, fizeste dele meu rival na tua atenção.
Um domingo inteiro de convívio foi-se embora quando a ele te
entregaste toda, a tua cabeça imóvel focada hipnoticamente naquele
enredo de dores e alegrias afegãs. Cem, cento e cinqüenta páginas de
um só fôlego, te transportando de onde estavas até onde nunca hei de
chegar.
Resistirei, estejas certa, e sabes que sou obstinado quando falo
assim. Ali jaz o tomo da discórdia no sofá macio da varanda, debaixo
dos teus óculos, as páginas onduladas pela maresia. Apenas descansa
ali como objeto inerte e aparentemente incapaz de qualquer coisa, o
livro e o estrago do ar salino sobre ele.
Não quero abri-lo justamente pra que possa confiná-lo em seu mistério,
nessa redoma que eu próprio blindei para cercá-lo. Que o seu título
continue me intrigando e sua polegada de espessura seja a medida que
me aproxima e me separa da emoção que imagino que ele encerra, das
tramas que deduzo que ele conta e dos seres que de forma rara há de
descrever.
Lembro que não estavas ainda na metade, quando vi um tremor de choro
no canto da tua boca. Abaixavas de um jeito estranho os olhos quando
falavas no livro, e nesses momentos eles tinham um brilho de quilate
ainda não avaliado. Um quilate outro, que inspirava a abrir na faca
uma vereda entre o prólogo e o epílogo. Tirar do bucho da obra o que a
tornava e a torna ainda, ao meu olhar, indevassável.
Das livrarias de aeroporto às drugstores, esses milhares de exemplares
em centenas de edições impõem-se à paisagem, como pipas num céu azul
de maio. O teu, do sofá, me olha e me desafia, querendo saber até
quando conseguirei me esquivar, supondo-me a última resistência à
instauração do seu império.
Que venha o vento das marés mais altas e lance um bocado de areia no
ondulado dessas páginas. Que mais tarde, amanhã pela manhã, uma garoa
fina lhe caia leve na lombada, mas não tão leve a ponto de manter
imaculada sua dedicatória. Que esses pequenos danos o tornem aos
poucos ilegível. Mais um motivo, o definitivo motivo para que o
esqueça em sua magia de uma vez por todas.
Por mim ele ficará fechado. Não darei linha a essa pipa, ainda que
saiba o quanto possa estar perdendo. Outros, muitos outros alçarão vôo
em meu lugar e desfrutarão dos seus encantos. Por enquanto o manterei
em terra firme, incógnito e humilde em meio à bagunça da estante, para
que conheça o castigo de ter te roubado de mim.
(31 de março/2007)
CooJornal no 522
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com