Marcelo
Sguassábia
A PRAÇA FALA AO SEU POVO |
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Eu, a praça de Buritis da Serra, vi quase tudo acontecer em meus
domínios. Comecei com um círculo malfeito de terra batida, quando não
eram nascidos os avós dos vovôs de hoje. Nem chafariz tinha, nem
planta, nem nada. Vocês foram me formando, dando sentido a mim e me
tornando, feia ou bela, o seu cartão postal. Gerações se sucederam me
elegendo como palco principal de seus encontros.
Na minha época áurea, os sagüis zanzavam pelas paineiras. À sombra
delas, o assunto era um tal de Getúlio. Que Getúlio isso, que Getúlio
aquilo, alguns defendendo e outros odiando. Falavam muito dele nos
comícios.
O fato é que já tive mais prestígio e glamour. Fui o epicentro da
pólis e a agência de notícias de antanho, e é difícil para mim amargar
esse abandono a que me relegaram. Era a sede de um poder paralelo,
mais efetivo e influente que qualquer ato do executivo ou conchavo da
vereança. A praça era a verdadeira tribuna do povo, o estopim de
greves, passeatas, atos de desagravo. Agora, quando muito, sirvo de
ponto de referência para que alguém saiba onde fica um outro lugar
qualquer.
Praça também é gente. E verdade seja dita: ninguém é mais cidadã nessa
cidade do que esta praça que vos fala. Posso até não ser de carne e
osso, mas assisti a todos os pecados da carne acontecendo nos meus
bancos e tenho embaixo do meu chão os ossos de gente ilustre. Há
também engrenagens enferrujadas de moenda de cana, um vidro de leite
de magnésia, um livro-caixa da fazenda Campo Largo, cacos de porcelana
da Companhia das Índias e um disco 78 rotações da Chiquinha Gonzaga.
Isso além de centenas de dedais, rolos de esparadrapo, rodas de
carrinhos de brinquedo, chaves e cadeados de diversos feitios e
tamanhos, cordas de sisal, arreios de couro e outros artefatos que
prefiro não citar, para não ferir a moral e os bons costumes desta
terra sem heróis.
À meia-noite e ao meio dia, sou duas praças diferentes. E não sei qual
é a pior.
Com o sol a pino, e ainda assim de vez em quando, assisto ao trote
vagaroso de uma mula que já não se agüenta, arrastando a sucata para o
ferro-velho, como se há séculos conhecesse o caminho. Nessa hora, de
fresco aqui só a água benta da igreja. Estudantes matam aula, velhotes
matam o tempo, casais matam a saudade, bêbados matam a sede de cachaça
e, caídos sobre minhas pedras portuguesas, ofuscam com o odor de suas
entranhas os meus poucos jasmins.
Já à noite, ir à praça dá medo. Um sujeito aqui, depois das oito, é
suspeito. E onde até outro dia haviam retretas e crianças felizes em
seus velocípedes, há um breu cúmplice do tráfico e da contravenção,
mesmo contra a minha vontade.
Se a praça fosse qualquer um de vocês, bípedes auto-denominados
pensantes, aí sim veriam o que é bom. Não iam gostar nada do mato
crescendo, das folhas caídas, dos papéis jogados e ninguém cuidando.
Quando haveria de pensar que sentiria nostalgia da pouca vergonha de
que fui testemunha... Quanta gente eu vi sendo concebida aqui nas
minhas barbas (ou nas minhas moitas), e depois batizada ali na Matriz,
fazendo a primeira comunhão, namorando em volta do meu coreto,
casando, envelhecendo e finalmente fazendo, por meus caminhos, seu
último passeio rumo ao campo santo.
Quero meu direito de ser praça novamente. Mas Praça digna, com P
maiúsculo. Até nome de edifício de apartamentos agora é praça, plaza,
piazza, onde já se viu? Banalizaram demais esse nobre logradouro. Não,
pra mim chega. Ser praça assim não tem graça.
(14 de abril/2007)
CooJornal no 524
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com