Marcelo
Sguassábia
MINHAS FÉRIAS NA FAZENDA DO VOVÔ
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Quando cheguei o notebook tava com a bateria fraca, vim jogando Fifa
Soccer na viagem. Foi um trampo pra achar, na casa do vô, uma tomada
que encaixasse no carregador.
Meu quarto era maneiro. Chapei com o visu da janela. Mas um pentelho
de um ganso não parava quieto, e eu tinha que deixar tudo fechado pra
não ouvir a barulheira dele.
O rango era estranho. Galinha ao molho pardo, polenta, pururuca, vaca
atolada. Ainda bem que minha mãe me forrou a mochila com Doritos e
Toddynho. Não ia comer aqueles bagulhos esquisitos nem a pau.
Um dia bateu uma larica forte. Pedi pro vô o telefone de um
disk-pizza, tava a fim de traçar uma redonda com tudo o que tinha
direito. O vô disse que pizza por ali só no forno da fazenda. Mas a
lenha precisava cortar e mussarela não tinha, só queijo fresco e
coalhada. Ferrou legal.
Minha vó ficava socando a porta do quarto, falando pra ir ver tirar
leite de vaca, regar horta, matar porco, colher goiaba.
Uma galerinha, filhos do caseiro, ficava de longe olhando pra mim.
Depois vinham com uns papos mó estranho, não entendia nada o que eles
diziam. Umas coisas tipo tuia, cafezá, carpi, prumódi, arquere. Bailei
bonito. O tempo todo os meninos ficavam me vendo tc. Na boa, me senti
no Big Brother.
Jogava counter strike de manhã, até a hora do almoço. Ficava destruído
e mandava ver umas Pringles. Só tinha um pacote, e ficava racionando.
Também tinha de reserva um chocolate Hershey’s. Comia um pedacinho por
dia, quando acabasse ia ter que encarar rapadura.
À tarde entrava no msn e fikava um tempão com a galera que tava on.
Blz,mas aí a máquina travou geral. Falei com o vô, mas o véio nem tava
ligado, mó sem noção. Tive que me virar sozinho. Foram 4 dias editando
os configs do sistema, reinicializando a cada 10 minutos. Nunca fiquei
tanto tempo off. Mas no fim consegui.
Uma vez apareceu na fazenda um tiozinho falando de arroba. Arroba do
boi, arroba do algodão. Esse aí manja de computer, pensei, deve estar
falando de algum site. Mas quando mostrei o notebook pra ele, ele
falou: "Nossa, que televisão fininha!". Aí desencanei. Outro sem
noção.
Daí pra frente foi maneiro D+. O programa não travou mais, conheci um
monte de gente nova e uma mina búlgara, mucho loka.
Quinta-feira passada um peão daqui apareceu com duas varinhas de
bambu, me convidando pra ir pescar. Nem fui, nada a ver, coisa de véio
seqüelado ficar lá com varinha na beira do rio. O cara surtou quando
eu falei em molinete. Nem se tocava que existia.
Naquele dia eu tava com meu jeans e ele perguntou se eu tinha caído de
um touro brabo, porque eu estava "cascarça rasgada no jueio e carecia
pinchá". Não sabia o que era "pinchá". Entrei no Google, mas não rolou
nenhuma ocorrência.
Na hora de vazar pra ksa, tava com meu iPod. Aí um dos carinhas da
roça mandou essa: "Xavê esse radim di pi". Depois de um mês, já
entendia um pouco aquele idioma. Deixei com ele. Ano que vem eu volto
pra buscar.
(28 de abril/2007)
CooJornal no 526
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com