Marcelo
Sguassábia
ACHADOS DE UM LIXEIRO
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Lixo de Jacob Samuelwenstein, caprichoso marceneiro da comunidade
judaica:
Doze tampas lambidas de iogurte Danone, armação de óculos de grau com
esparadrapo em uma das hastes, uma gravata puída e sem grife, uma
máquina de somar da marca NCR com os números das teclas apagados, duas
presilhas de calça para andar de bicicleta, gaiola de hamster
enferrujada com bebedouro de lata de manteiga Aviação e comedouro de
cera Parquetina, um botão de camisa quebrado ao meio e colado com
super bonder, uma escova de dentes Tek rosa-choque com 3 cerdas, um
pote vazio de pomada de basilicão - com prazo de validade datado de
junho de 1981.
Lixo de Sara Samuelwenstein, mãe de Jacob Samuelwenstein:
Nada foi jogado fora.
Lixo de Mitsui Narigoshi Fujioko, analista de sistemas:
TV de plasma 54”, câmera digital de 12 megapixels e cartão de memória
de 4 gigabytes, meio sushi, duas cuecas tamanho pp, cd com curso
virtual “Sumô para Nisseis”, foto do Zico com chifrinhos feitos a
caneta esferográfica. Havia também um Mitsubishi Pajero prata ano
2007/modelo 2008 estacionado junto ao saco de lixo, com um bilhete no
limpador de pára-brisa: “É para rixeiro revá, né. Japoneis não quer
mais. Arigatô”.
Lixo de Romão de Souza Silva, servente de pedreiro:
Dois avisos de cobrança – um das Casas Bahia e outro das Lojas
Bernasconi, uma novena de Santa Edwiges cortada em 4 pedaços, um
santinho de Santo Expedito cortado em 132 pedaços, um comprovante de
aposta na megasena, exemplar do livro “Seu direito de ser rico”,
vários esboços de uma carta endereçada ao judeu Jacob Samuelwenstein -
implorando um prazo maior para o desconto das duplicatas, um bilhete
de despedida explicando os motivos do suicídio, uma nota fiscal de
farmácia discriminando compra de gaze, atadura, antiinflamatório e
analgésico, um atestado médico solicitando afastamento do trabalho por
45 dias.
Lixo do posto avançado municipal da autarquia Brasilbrás:
834 senhas de atendimento, vários exemplares lacrados da revista “A
voz da Brasilbrás”, inúmeros pedidos de aposentadoria, licença-prêmio
e revisão de benefícios dos funcionários, formulários e protocolos
diversos com jogo da forca e stop no verso, um recadinho com os
dizeres: “O paletó do chefe não está combinando nada com a camisa, não
é mesmo? Ridículo, nunca vi tanto mau gosto...”.
Lixo de Ivonete do Prado, desquitada, 54 anos:
Artefato de plástico maciço, movido a pilha e rachado
transversalmente, envolto por 25 metros de papel higiênico de folha
dupla.
Lixo da Creche Pimpolho Peralta:
Mickey Mouse de pelúcia com as orelhas arrancadas, fraldas
descartáveis usadas, 12 garrafas vazias de cachaça.
Lixo do morador do apartamento 702 do Edifício Le Lac de Jour:
Várias embalagens de marmitex da churrascaria delivery “Boi na Linha”,
uma declaração de amor à moradora do apartamento 604 do Edifício
Altavista.
Lixo da moradora do apartamento 604 do Edifício Altavista:
Oito catálogos antigos da Natura, seis catálogos antigos da Avon, uma
reclamação ao síndico do Edifício Le Lac de Jour, alegando estar sendo
espionada através de binóculo pelo morador do apartamento 702.
Lixo do advogado Arnaldo Sebastião de Oliveira Júnior:
Rascunhos da ação judicial conjunta movida por vários moradores da
cidade contra o lixeiro Ribamar Severiano Dias, acusando-o de invasão
de privacidade e quebra de sigilo doméstico.
(19 de maio/2007)
CooJornal no 529
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com