Marcelo
Sguassábia
Do ócio mais que
improvável
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Nada anuncia no horizonte próximo alguns
dias, poucos que sejam, de um lagartear gostoso e inconseqüente. Mas
sonhar não custa, e o máximo que pode acontecer é me frustrar quando
sair do devaneio.
Me permitirei levar uma mala dessas bem grandes, mas minimamente
ocupada, onde acomodarei só o indispensável para a viagem. Quero ter
espaço bastante pra forrá-la aos poucos, com o que for achando de
melhor pelo caminho.
Qualquer lugar onde esteja será o ninho morno da preguiça. Despregarei
os ossos da rede quando e somente quando me encontrar exausto de nada
fazer. Me imagino acordando das sestas com o cachorro – que não tenho
– lambendo minhas mãos, a implorar o afago adiado por pressas e
compromissos. Me fartarei de admirar a aurora e o sol se pondo na
fazenda centenária – que também não tenho – a meditar vendo mandalas
nos ladrilhos da varanda.
Aí então talvez me dê vontade de escrever um texto que saia do cerne
de mim direto para o papel, sem escalas no cérebro. Quase que
mediúnico, desaguando como a cachoeira que há de me banhar, onde quer
que eu escolha ir ficando, sem a menor possibilidade de ser
encontrado. Um texto em que eu não tenha que me debruçar cortando
adjetivos e procurando sinônimos, que flua sem meias palavras nem
entrelinhas.
Mesmo estando minha filha já nos seus 18 anos, contarei a ela
histórias que ficaram por contar quando ela tinha 8. Resgataremos um
pouco o tempo mal gasto em correrias que a nada nos levaram,
tentaremos compensar os dias vividos de forma autômata, a mando da
sobrevivência predatória.
Deixarei de mastigar pensando no que farei depois de comer. Ruminarei
lentamente, atento à mastigação como afazer em si. Surpreso,
perceberei sabores insuspeitos em cada bocado. Como um recém-nascido,
me entregarei aos cuidados dos que estão ao meu redor. Serei
temporariamente irresponsável por meus atos. Um mero observador de
flores e nuvens, que se encanta em tão somente observá-las.
Jornais, revistas, agendas serão solenemente ignorados. Tirarei o
relógio do pulso. Mas abrirei uma exceção ao computador, pois prometi
a mim mesmo umas buscas na internet atrás de amigos de infância. Darei
virtualmente o ar da graça a alguns deles, mas não esperarei resposta,
pois é mais do que improvável que possam estar como eu, em doce estado
de ócio.
Darei ouvidos aos pássaros que cantam de manhã à janela, e dessa vez
não deixarei o alarme do despertador abafar seu canto. É quase certo
que eu resolva andar descalço o tempo todo, autorizar-me um estepe no
pé e um risco de tétano. Bom seria ouvir minha mãe contando histórias.
Não as inventadas que tenho em dívida com minha filha, mas as reais,
as de família, que ela não cansa de repetir já que eu não canso de
escutar.
Não resistirei aos divãs, almofadas, camas, sofás e espreguiçadeiras
que apareçam à minha frente. A volta à rotina não passará de uma
remota possibilidade, que nem cogitarei em levar realmente a sério.
Mas eis que acordo, assustado. E, hesitante, caio em mim e vou à luta.
(09 de junho/2007)
CooJornal no 532
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com