Marcelo
Sguassábia
FERNANDA AOS SÁBADOS
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Sete e quinze
Embora as evidências indicassem o contrário, ela não havia acordado de
fato.
Mesmo que estivesse de pé em frente à pia do banheiro, apertando com
força o resto de pasta no tubo. Até se dar conta de quem era, de onde
estava e do que se passava nas imediações ia um certo tempo –
abreviado consideravelmente quando tomava uma cápsula ou duas de
Pfaffia Paniculata.
Sete e vinte e três
Olha as olheiras e gela. Por um momento pensa que os espelhos deveriam
ser banidos, a menos em casos extremos ou para uso exclusivamente
clínico (quando se coloca um desses pequenos próximo à boca do doente
terminal para ver se ainda respira).
Nove e dez
Um blend de mel e cremes na cara, pepinos nos olhos, esmalte nas unhas
das mãos e dos pés. Um robe atoalhado branco e nada por baixo. Assim
fica enquanto escuta Rachmaninov. Ruído de correspondência sendo
enfiada debaixo da porta. Sushi delivery. Vai pedir meia porção pra
experimentar.
Meio dia e cinqüenta e dois
O celular recarregando, a roupa suja da semana centrifugando. Revisa a
tese de mestrado e repõe a ração no pratinho do Chonsky.
Uma e quarenta
Sintomas silenciosos, mas não propriamente imperceptíveis, já há
alguns dias deixavam clara a situação: havia urgência no atraso a
tirar, e não se cogitava a menor hipótese de adiamento. Os hormônios
entregam o cio em olhares, cheiros exalados, indícios ancestrais do
acasalamento iminente. Consulta a agenda. Telefona. Ele chega vinte
minutos depois com o perfume amadeirado de costume.
Quinze e trinta
Ocorre que o macho que afoitamente lhe invadia a carne não era homem o
bastante para tocar-lhe a alma. Nem ela parecia querer que fosse de
outra forma. Um amigo. Amizade e sexo, nenhuma chance de discutir a
relação. Se refaz do gasto calórico com fartas colheradas de abacate
batido com leite. Não iria engordar mesmo, ninguém na família tinha
tendência. Abaixo os amores gravados nos troncos das árvores. Viva a
inconseqüência dos desencanados.
Dezenove e cinco
Sozinha de novo, alterna do sofá para a poltrona. A predileta desde
pequena, veio da casa dos pais. Os braços pensos, o olhar vago
encarando um ponto imaginário na parede branca. Branca como ela,
arredia das praias e piscinas. Branca como a insípida persiana do
escritório, de segunda a sexta, das 8 às 18, a lhe negar a paisagem da
rua. Branca como o nada que se passa em sua cabeça no momento, o nada
branco e seu peso insuportável.
Vinte e duas e vinte
Fernanda. Há algo de gerúndio neste nome. De coisa indefinidamente em
andamento, um ser em construção, inconcluso – ela pensa, enquanto
devora o último sushi que sobrou do almoço. É, acho que é isso. O nome
casa perfeitamente com a pessoa.
Vinte e três e cinqüenta e seis
Fecha o livro sobre o colo. Os longos cabelos lisos caem sobre o
volume, formando uma estranha composição abstrata. Descansa da fadiga
de si mesma e deixa-se vencer por um cochilo. Tentam entendê-la, são
muitos querendo sua chave, sua senha, seu código. Mas Fernanda é um
mistério ainda mais indevassável quando dorme.
(30 de junho/2007)
CooJornal no 535
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com