Marcelo
Sguassábia
CARTA DE UM PRESO AO SEU PAI
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Modéstia à parte eu me considero um
ladrão boa gente, pai. E você sabe que eu sou. Tive a quem puxar, né?
Meus camaradas de cela dizem que homem não chora, que escrever é coisa
de fresco. Mas eu estou chorando e escrevendo agora, boiolão assumido,
tudo bem. Estou abrindo o coração de saudade sua, meu velho. Segura
essa onda comigo, preciso demais de um Habeas Corpus pra te abraçar
bem apertado.
Você que me deu a primeira luvinha pra não deixar impressão digital na
mamadeira, de lã azul celeste e punho imitando algema, lembra? Você
que me ensinou que vergonha é roubar e não poder carregar – e que por
isso a gente deve sempre levar um saco bem grande ou ir assaltar de
carro. Que sempre me aconselhava a evitar sereno em assalto à noite e
a olhar pros dois lados da rua, na hora de fugir da polícia.
Tá viva demais a lembrança de você me mostrando como é que se coloca
uma meia na cara. Do dia em que você me levou pra uma festa com seus
amigos em Brasília, todo mundo engravatado. Você roubando o pão com o
suor do seu rosto. Lutando com dificuldade, porque os policiais
geralmente eram bem maiores que você. Que covardia.
É, pai, nem todo bandido é frio como cano de revólver. E como recordo
seu colo quente, me adestrando em golpes e mutretas, me falando das
diferenças entre furto, roubo e latrocínio...
Logo que aprendi a escrever, já falsificava assinaturas do Tiago, da
Fabíola e do Gui, meus coleguinhas do colégio. Você me dando força,
fazendo uma correção aqui e ali. Depois fui crescendo e passei a
falsificar assinaturas dos pais da classe toda nos boletins, mediante
pagamento em balas, chicletes e dadinhos na hora do recreio. Dos
boletins da escola foi um pulo para os de ocorrência. E olha que, como
filho de pai bandido, tinha tudo do bom e do melhor. Não precisava
levar essa vida. Antes dos 16 já tinha celular clonado, carro com
chassi frio e uns caraminguás na Suíça. Um verdadeiro Mauricinho da
Rocinha.
Você era malandro, sim, pai. Não escondia isso de ninguém. Mas também
nunca deixou faltar nada dentro de casa: nem dólar, nem notebook, nem
cd player de carro de bacana.
Que dizer então do carinho da mamãe? A última broa de milho que ela me
mandou estava deliciosa. E a serra no recheio, como sempre,
afiadíssima. Não vejo a hora de fazer um teste nessas grades, mas o
carcereiro não dá trégua. Ah, mamãe... meus olhos marejam ao lembrar
do seu zelo e dedicação. Mamãe que nunca teve nada a ver com ofício
escuso, que não sabia se pedia a Deus pelo marido ou pelo filho.
Como ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, penso que é o
momento de confessar que fui eu quem sumiu com o dinheiro que o senhor
afanou daquela viúva do Guarujá. Poderia muito bem ter aberto o jogo
antes, mas o fato de conseguir engambelar um expert do seu naipe é o
maior troféu que eu poderia ganhar na vida.
Eu queria te falar tudo isso pessoalmente, quem sabe no indulto de
Natal. Mas minha voz ficaria mais presa do que eu estou agora. Eu, que
mantive tanto mané em cativeiro, hoje sou refém de você, pai. Meu
velho pai, sangue bom.
Esta carta foi encontrada junto ao corpo de Jair das Candongas,
destinatário da mesma, após violento tiroteio na Favela do Maluco.
(21 de julho/2007)
CooJornal no 538
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com