Marcelo
Sguassábia
OUVINDO GUIOMAR |

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Para Guiomar Novaes, de São João da
Boa Vista,
considerada por muitos a maior pianista de todos os tempos.
Escuta: é Guiomar que nos toca. Por Santa Cecília, quem é essa menina
que sai de sua província ao pé da Mantiqueira para meter assombro em
Ravel e Debussy? Os dedos meninos de Guiomar aos 13, flanando espertos
sobre o ébano e o marfim, desconcertante em seus concertos na Paris da
Belle Époque.
Andante Cantabile. A respiração suspensa da platéia, tudo em
volta silencia para a ela dar ouvidos. A virtuose Guiomar tem o condão
da hipnose coletiva, voa e faz levitar. Solda-se ao negro Steinway de
cauda e faz brotar avencas das sonatas de Beethoven. Põe a nu o que
Chopin escondia atrás das semicolcheias. Transforma Schumann em pintor
impressionista, nas mil duzentas e vinte e nove paletas de cores que
arranca da partitura. O pentagrama são fios onde pousam garças raras,
na clave de Fá o ouvinte cai em Si. E seja Lá o que Guiomar quiser,
precisamente e tão somente o que quiser.
Saia do enlevo por um instante e repare bem no que se passa. Ao
contrário do que parece, não é Guiomar quem se debruça ante o teclado,
e sim uma dublê da diva. A partner que desvia a atenção do público
para perpetuar o truque. Assim que a música começa, a verdadeira
intérprete desce à platéia sem que a vejam, nos toma pela mão e nos
leva por sendas intrigantes e desconhecidas, trilhas que ela abriu e
às quais se adentra por seu exclusivo intermédio.
Não sei, ninguém sabe e possivelmente nem ela fazia idéia do que de
fato acontecia quando a mulher e o piano se enlaçavam, e o que esse
enlace era capaz de provocar. Só sei que toda vez que o sol desperta,
nessa São João quase-Minas, é Sol Sustenido Maior em Allegro Molto
Vivace. É o astro-rei nos lembrando a estrela maior da terra.
Os “vivas” e “bravos” não param com o cerrar da cortina. Há flores no
camarim. Não consegue acabar de ler o cartão, tem de voltar ao palco
para o terceiro bis. “Melodia de Orfeu e Eurídice”, de Gluck. Perfeito
para dar à noite Gran Finale.
Guiomar não se bronzeia, não vai às compras, não sabe trocar marchas
no automóvel, não aprendeu a fazer arroz nem bico de crochê. Não tem
noção de nada prático porque é operária da vida etérea, produzindo
encantamentos como quem aperta parafusos. A Guiomar dos palcos
desprezava pedestais. Por mais artista que fosse, permanecia artesã.
Último movimento: Adagio con Molta Espressione. Guiomar fria,
quem poderia supor, logo ela que era o avesso da frieza. Sai do
casarão da Rua Ceará para o Cemitério da Consolação. Foi quando os
deuses, deste e de outros mundos, reunidos em concílio, selaram
inapelavelmente o destino do piano. Colocaram o feltro vermelho sobre
as teclas, fecharam o instrumento e esconderam a chave para sempre.
(28 de julho/2007)
CooJornal no 539
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com