Marcelo
Sguassábia
POR FAVOR, NÃO LEIA ESTE TEXTO |

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A hipótese mais provável é que quase todos tenham acatado a sugestão
acima e ido embora. Se normalmente tão pouca gente lê, imagine com o
autor pedindo para ser ignorado. Mas vou prosseguir em consideração a
você, um dos pouquíssimos curiosos que ficaram.
Acontece que te peguei. E peguei pelo título. Tenho pra mim que só
existem duas chances de seduzir um leitor – ou no título, ou logo no
primeiro parágrafo. Se não fisgou aí, um abraço. Já era. E como os
primeiros parágrafos nem sempre são instigantes ou arrebatadores,
especialmente os meus, achei mais prudente apostar todas as fichas num
título que despertasse a curiosidade.
Usei desse artifício por instinto de sobrevivência, para salvar meu
texto da morte prematura. A palavra escrita é mesmo uma injustiçada
nesse mundo regido pela pressa. Silencioso, o texto sofre a
concorrência desleal de toda sorte de ruídos e distrações. Televisão
ligada, choro de criança, esposa pedindo pra trocar a lâmpada, coceira
no dedo do pé, telefone tocando, pernilongos e liquidificadores. Chega
a ser covardia, tudo é pretexto para se afastar do texto. É diferente
do contato com um quadro ou uma música. Aí basta a experiência
sensorial, dispensa-se o esforço interpretativo.
Outro inimigo mortal do texto é a preguiça. Para muitos, ler é
atividade maçante e tediosa. O texto é algo de que é preciso se livrar
o mais rapidamente possível para fazer coisa mais prática. E o texto
lá, coitado, quietinho e à mercê de boa vontade e bem-querer...
A essa altura, é grande a possibilidade de você já ter me abandonado.
No que, reconheço, estará coberto de razão. Mas caso ainda esteja aí,
continue. Você já venceu boa parte da empreitada, não vá me deixar na
mão agora. Pense que você terá perdido uns três minutinhos, enquanto
eu levei muito mais tempo às voltas com isso aqui. Considere o zelo
que tive pensando em sua fruição estética, começando não sei quantas
vezes do zero para não entediá-lo. Seria uma deselegância de sua parte
deixar isso ir por água abaixo.
Talvez para segurá-lo eu tenha que criar um turning point. A famosa
reviravolta na narrativa, forjada para reacender o interesse. Dez
entre dez roteiristas de novela utilizam esse recurso, sempre que a
ação começa a ficar previsível.
Não adianta querer enganá-lo, leitor. Logo você percebe a encheção de
lingüiça, os recursos, truques, forçações de barra e cai fora mesmo,
sem a menor cerimônia. A menos que o autor seja muito famoso, uma
celebridade das letras. Unanimidade tão indiscutível que, pelo
respeito a ele, você se sente na obrigação de ler o que escreveu.
Difícil mesmo hoje em dia é encontrar o leitor apaixonado, que se
abstrai de tudo para mergulhar na leitura. Que mesmo lendo de pé,
dentro de um ônibus cheio, consegue se transportar para uma cena de
amor num castelo da Normandia. Por outro lado, como é chato aquele
leitor que mede o texto pelo valor instrumental e utilitário. O que
acha que todo escrito tem que servir pra alguma coisa, ter começo,
meio e fim, expressar claramente uma idéia ou opinião. Enfim, dizer a
que veio, como os manuais do proprietário, as bulas de remédio, as
receitas de bolo e as apostilas de colégio. Ainda bem que você não é
esse cara, pois se fosse já teria debandado há dezenas de linhas.
Está achando que perdeu seu tempo? Não foi por falta de aviso. Desde o
começo eu disse que não era para ler.
(04 de agosto/2007)
CooJornal no 540
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com