Marcelo
Sguassábia
ENTRE LIVROS |

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É, foi um custo escalar a terceira
prateleira da estante. Só encaramos a empreitada por estarem
empilhados a enorme Bíblia que veio junto com a Barsa, O “Ulisses”,
quatro tomos da obra completa do Machado e dois catataus dos quais não
me recordo exatamente os títulos.
Na ida, ainda que grande o cansaço, tudo bem. Mas e a descida, de que
jeito? Íamos nos arrebentar naqueles arranha-céus livrescos.
Continuamos subindo, Virgínia e eu. Havia um propósito naquela
loucura. Quando vimos estávamos em meio a uma celebração de estranhos
ritos, presidida por Sidarta e pelo Pequeno Príncipe.
Tia Nastácia chegou junto com Emma Bovary. Cinco minutos depois o
Padre Amaro, Huck Finn e Ivanhoé surgiram no dorso de Moby Dick. De um
amarelado volume de partituras saiu uma orquestra completa, executando
“Clair de Lune” e a “Valsa das Flores”. Tudo isso ali, no alto do
Morro dos Ventos Uivantes.
Nas lombadas mais lisas, dava para transitar de bruços entre a poesia
e a prosa. Sem querer achamos, escondida atrás de um travessão, a
palavra que até ontem nos fugia para fechar nosso verso. Predominavam
páginas porosas e ásperas, o couchê envernizado era raro, se via em um
ou outro livro de arte. Frases vazavam das brochuras na prateleira
abaixo, saltavam e se decalcavam nas paredes. Algumas escorriam em
nossos corpos, provocando o significado que tinham no papel.
Tanto os livros relidos quanto os nunca manuseados formavam uma massa
indistinta para a traça e o mofo. Não estavam ordenados nem por
assunto, nem por gênero, nem por ordem alfabética. Livros ali eram
livros como arroz é arroz numa tulha. E sentíamos o amor que a
coisa-livro, objeto meramente, despertava. Era preciso possuí-los,
devorá-los, uns com calma e outros vorazmente.
Uma família de ácaros passou de repente entre um “Eu” e um “sou” do
texto, no quarto parágrafo da página 112. Depois uma letra garrafal,
da qual bebemos um gole. Virgínia estava exausta e as luzes, àquela
altura quase todas apagadas, dificultavam a continuidade da missão.
Deitamos os dois num Dom Quixote que alguém deixou aberto, edição
espanhola com marcador de couro e sem dedicatória. Assim que Virgínia
se acomodou no volume, fiz cair suavemente sobre ela uma das páginas.
Antes que findasse a leitura de dois sonetos de Petrarca, ela já
sonhava. Mas não comigo, quem dera. Tinha heróis de outros livros,
mais intrépidos e apaixonados, ávidos por sacar a espada da bainha a
um espirro seu.
O “Grande Sertão” abria-se como uma tela cinemascope à minha frente.
No cipoal de advérbios e pronomes esbarrava em neologismos que
passaram despercebidos em minha primeira leitura, no Liceu de
Adamantina. Insone, segui viagem pelas veredas do Guimarães mais
fecundo, que chegava conduzido pelo velho Manuelzão.
A serenidade de Virgínia repousando contrastava com o resto do mundo.
Da porta para fora havia seres sobressaltados com seus carnês a pagar,
mulheres escolhendo feijão pra seus maridos-robôs e filhos-cavalos.
Que sina a dessas coitadas definhantes, acendendo velas e orando,
orando, orando como se a vida fosse orar e escolher feijão? Nada disso
venha a nós, longe de nós esse reino, deixemos as contas e vamos aos
contos, romances, narrativas de princesas e heróis misteriosos.
Possamos sorver até à última gota o leite das ninfas de Baudelaire,
que é o que compensa e o que se faz com gosto, ainda que todos nos
condenem à danação. Somos, eu e Virgínia, a primeira e a segunda parte
de uma mesma história, que o autor largou sem achar um fim.
(25 de agosto/2007)
CooJornal no 543
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com