
24/11/2007
Ano 11 -
Número 556

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
NATAL DE ARAQUE
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- E então, como foi na entrevista?
- Vou ter que engordar uns 22 quilos se quiser pegar a vaga de Papai
Noel. O recrutador disse que a barba está boa, mas meu rosto está
muito chupado.
- Só que pra você engordar vai ter que comer, e se tivesse o
suficiente pra comer não tinha que procurar esse bico. Não dá pra
colocar uns enchimentos debaixo da roupa? Um almofadão, um edredon
fofo?
- Não adianta... Papai Noel tem cara gorda, tem braço gordo. E nos
gordos de verdade até a voz é diferente. A minha é um fiapo, Maria...
parece aquelas de Pato Donald quando entrevistam bandido no Jornal
Nacional.
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Bem, analisamos todos os candidatos e apesar da magreza optamos por
você. O esquema é o seguinte: você acomoda o peste nos joelhos e faz o
interrogatório, observando rigorosamente esta seqüência:
. Você é um bom menino?
. Se comportou durante o ano?
. Obedece papai e mamãe?
. Vai bem na escola?
. Come toda a chicória do prato?
Depois de ouvi-lo mentir em todas as respostas, você pega a cartinha
da mão dele, lê em voz alta, coloca ela no saco, dá um beijo na testa
do ranheta e enfia dentro do envelope o folheto da loja que tem o
brinquedo que ele pediu. Aí você diz pro melequento entregar o
envelope pro pai dele, falando que é a resposta do Papai Noel, ok? O
que converter em venda você leva meio por cento. Feito, meu velho?
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O turno era de 14 horas ininterruptas. O assento do trono tinha uma
pequena tampa que dava direto para um outro trono, da Celite, pra que
Papai Noel não precisasse sair dali pra nada. A fila tinha de andar,
fazer o quê. E calculando a conversa de cada pentelho com o bom
velhinho, mais a pose pra foto, tínhamos a média de 2 minutos e meio
por peralvilho.
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- Gui, olha só o Papai Noel!!!
- Ô mãe, é Natal ou primeiro de abril?
- Por que a pergunta, Gui?
- Papai Noel chega de trenó, não de helicóptero como esse aí. Não tem
tatuagem da Harley Davidson e do Che Guevara perto do cofrinho. Não
fede cachaça. Ah, e na roupa desse velhinho aí tem uma etiqueta
escrito “Casa das Festas”. Estranho, não? Esse não é Papai Noel. É um
mentiroso sem vergonha.
- É isso mesmo, o senhor é um impostor. A gente passa o ano todo
dizendo para os filhos que mentir é feio, que se disser mentira não
ganha presente de Natal. Aí chega aqui no shopping e encontra um Papai
Noel fajuto, mais suspeito que brinquedo chinês. Nem criancinha
lactente cai nessa esparrela. O senhor não passa de um artigo de 1,99!
- É, vamos processá-lo por falsidade ideológica, mãe. Esse Papai Noel
cover não tem nada a ver. O verdadeiro Nicolau deve estar indignado
com esse rascunho genérico.
- Chuta o saco dele, Gui, chuta. Isso!
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O escândalo do Noel desmascarado espalhou-se mais rápido que as renas
do Noel de verdade. Tiveram de arrumar um substituto às pressas, este
afiançado pela administração do shopping como legítimo. O risonho,
bonachão e desta vez suficientemente gordo Santa Claus distribuía
ho-ho-ho’s por onde passava. No mais, os piscas, as bolas multicores,
as guirlandas e os sinos badalando anunciavam um natal a preceito,
como deve ser. Contudo, um guri capcioso, na hora de subir ao colo do
obeso acetinado, viu o que não devia ver: uma fitinha do Senhor do
Bonfim amarrada no punho do Papai Noel. Do verdadeiro Papai Noel.
- Ô manhêêêêêêêêêêêêêê! Vem cá ver uma coisa!
(24 de novembro/2007)
CooJornal no 556
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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