
22/12/2007
Ano 11 -
Número 560

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
HOLY NIGHT
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I
Quanto ao acontecido, não pairava nenhuma dúvida: o Menino Jesus de
gesso tinha virado os olhinhos na minha direção, dando ainda por cima
um risinho de canto de boca. Estávamos os oito na igreja, não podia
fazer nada a não ser esperar o fim da missa pra contar a todo mundo. De
joelhos na hora da Consagração, eu desacreditava e pedia ao Menino
Jesus de verdade pra que o seu clone do presépio parasse de
brincadeira. Mas não. Olhava para a manjedoura e ele me encarando. Às
vezes até dava uma piscadinha, franzia o cenho, mexia as pernas no
berço de palha. Apertava forte a mão de minha mãe, disso sempre irei
lembrar, me agarrava febrilmente à sua certeza de que tudo estava bem.
II
A lata semiaberta de pastilhas Valda no criado-mudo: aquilo era a cara
dele. O enxofre do polvilho Granado se via no tapete e empestava o ar.
Se velhinho tem cheiro, cheiro de velhinho é aquele, de talco
anti-séptico. Vovô Noel de costelas visíveis e peles flácidas, em
suspensórios e camisa regata no casulo do seu quarto, deixava o leito
em direção à porta, lento como o badalar dos sinos.
- Oi, vô. Deixa que eu te ajudo, espera aí.
- Deus te abençoe, menino. Que o seu neto também seja carinhoso com
você, viu?
Lembrei das lições do catecismo e me senti um escoteiro, ciente do
dever cumprido.
III
Não, não naquele dia a nuvem de cebola refogada, o enxágüe burocrático
da louça, as coisas todas em seu lugar e um lugar certo pra cada coisa.
Não naquele dia a lida doméstica sem gradientes de espanto. Não naquele
dia o arrastar na marra dos ponteiros do cuco, mostrando o tempo que
faltava para levar as cadeiras à varanda e jogar fora toda a conversa
que houvesse no mundo. Não naquele dia. Não na noite de Natal.
IV
No olfato se impunha o assado e seu perfume. Era só ele e mais nada,
das seis e meia em diante. Uma coisa de não resistir, de ter de abrir o
forno às escondidas e furtar a casquinha régia, a mais cobiçada do
bicho, onde a marinada da véspera tinha feito repouso e deixado seu
suco.
Papai Noel triunfa e ri seu riso balofo, abre sendas de alegria no
chacoalhar da pança. Havia o Natal e havia a urgência dos que não
podiam parar apesar dele. Havia o André da Botica Almeida & Filhos, em
plena noite de 24 a correr vila em cima da monareta, o estojinho de
injeção e o garrote tripa-de-mico na garupa.
- Prefere no braço ou no músculo?
Dizia polidamente músculo, às vezes região glútea, dependendo da
intimidade com o doente. Concluída a ronda dos moribundos, como seria o
Natal do André? Indo um pouquinho mais longe: rezada a Missa do Galo,
como seria o natal do Papa? Com quem irá cear o Pontífice e o que terá
sobre a mesa?
V
O peru se fatia como se em fatias estivéssemos destrinchando as graças
e desgraças da vidinha de costume.
Castanhas sobre a mesa, castanhos são os olhos de quase todos ao redor,
pastores vão aos berros clamando por conversão na festa da cristandade.
- Ponha o copo de água sobre o aparelho de TV, ore comigo, meu irmão!
Todos os pedidos jazem serenos nos sapatos. Papai Noel, eu quero. Papai
Noel, me traz.
(22 de dezembro/2007)
CooJornal no 560
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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