
29/12/2007
Ano 11 -
Número 561

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
MAL TRAÇADAS
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- Oi.
- Pode falar.
- Falar o quê?
- Ué, você botou o travessão na frente. Travessão se usa quando a gente
vai falar alguma coisa. Vai, desembucha.
- Até aí estamos quites, você também tá usando travessão.
- Usei pra responder. Tava quieto no meu canto, por mim ficava mudo e
escondido como um tratado de química inorgânica numa biblioteca
pública.
- É, você é mesmo de poucas palavras. Nem uma linha quinta-feira
passada, nosso aniversário de namoro.
- Nem uma linha uma vírgula! Te deixei uma citação inteira, grifada em
vermelho, você é que não reparou. Um trecho lindo da Adélia Prado.
Admito que costumo falar pouco, mas antes monossilábico que prolixo.
Muita gente fala, fala e não diz coisa com coisa.
- É uma indireta pra mim?
- Você e suas deduções. Entenda como quiser.
- Acho que está mais do que na hora da gente discutir a redação. Ainda
não consegui engolir a exclamação que você soltou para aquela vogal
saidinha.
- Caramba, isso foi lá no segundo capítulo. Nem lembrava mais disso.
- E depois tem outras coisas, que é bom que fiquem claras de uma vez
por todas:
- Ih, Jesus amado, colocou dois pontos. Agora o discurso vai longe. Me
poupe, pula uns oito ou dez parágrafos, esse texto eu já conheço. Vai
direto pra última frase, vai.
- Ad commodum suum quisquis callidus est.
- Pode poupar o seu latim, não estou nem te escutando.
- Kalispera yassas den kataleveno akrivo.
- Definitivamente, o que você fala pra mim é grego.
- Olha, que tal parar com evasivas e encarar a realidade? Vê se
cresce...
- Meu amor, aquela letra que você falou não faz meu tipo. Você sabe que
eu prefiro as mais encorpadas, corpo 18 ou 20, como você. Nós nascemos
um pro outro, morzinho. Vamos juntar os trapos e encher a casa de
letrinhas de bula, heim?
- Casar com você? Tá bom... deixa eu terminar meu tratamento
anti-serifa que você vai ver só eu desfilar lisinha por aí.
- Já sei, vai se transformar numa verdadeira Helvética Light Condensed.
- Pra você, um legítimo Bookman Old Style Extra Bold, eu tô de muito
bom tamanho. Tá vendo o gato daquele G? Um que parece o KK, ali na
linha de baixo... então, dizem que tá enrabichado por mim e que até fez
um acróstico em minha homenagem.
- Não foi isso o que L disse pro meu til. A versão que eu conheço é bem
diferente.
- Tá com ciúme, bem? Hã?
- O que me magoa é essa sua ingratidão. Eu te tirei daquela vida
gramaticalmente desregrada, te levei pra morar numa obra decente, de
autor famoso, com capa dura e nota de rodapé.
- Nem me fala, essa página eu prefiro rasgar. Foi um erro tão crasso
que até o Pasquale comentou na coluna dele.
- Devia ter te deixado lá, jogada às traças naquele sebo de subúrbio,
no meio da pilha de gibis do Bidu. Você renega a própria história.
- A história toda, não. Só alguns capítulos muito mal-escritos...
- De novo sendo reticente. Fala com todas as letras o que tem que
dizer, poxa. Pra mim o que você quer mesmo é voltar pro Epílogo, aquele
seu caso que acabou terminando mal, lembra?
- Lembro sim, foi no tempo em que você saía com a Resenha, a venenosa
que falava muitíssimo bem da sua pessoa pra todo mundo.
- Agora chega. Com você não tem diálogo.
(29 de dezembro/2007)
CooJornal no 561
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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