
16/02/2008
Ano 11 -
Número 568

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
DIVAGAÇÕES INÚTEIS NO INÚTIL DA
TERÇA
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Qual não foi meu espanto ao constatar a
surpresa nenhuma que me espreitava, insidiosa, naquela terça. Vá lá que
a terça seja via de regra um dia meio sem caráter definido, insosso
intervalo entre a segunda do início útil da semana e a quarta, que
assinala o seu meio. Mas tão sem graça assim jamais a vi, nem a verei
provavelmente.
Apático, abri o livro das gravuras austeras e segredos milenares,
aquele temido na infância por não poder com seu peso, adivinhando os
arabescos em ouro de suas capitulares. Dele sempre mantive prudente e
salutar distanciamento, uma reverência talvez vinda de olhares censores
que me asseguravam sova certa ao folheá-lo. Desistia dos intentos ao
cenho franzido dos capelões d’El Rei, das amas cansadas do ofício e dos
Torquemadas de plantão, desses que não faltam para assustar meninos em
noites chuvosas.
Assim, respeitoso, era o meu lidar com o livro e com os demais e tantos
objetos de adoração depois dele: a vitrola de feltro vermelho sobre o
prato, a Rolleyflex e a máquina de escrever, além da imagem de Santo
Antonio na capela da herdade – esta de visão bissexta mas marcante, a
me encarar com veemência enquanto desfiava-se o rosário à hora da Ave
Maria.
E foi olhando então o tomo de autoria incerta, senhor de todas as
senhas e sendas possíveis, que me revi criança à mesa das refeições,
formando figuras com a calda de pêssego que sobrara na tigela, a alma
em paz e o corpo relaxado pelo banho antes da janta. Passado tanto
tempo e mandados às favas os bichos papões, estava enfim autorizado a
fazer do volume o que quisesse, que divagasse sem amarras sobre ele.
Seria eu o Torquemada de plantão, se criancinhas houvesse para se meter
medo ali nos arredores.
Sem intenção consciente, a bárbara fêmea à mente foi se impondo,
radiante e lúbrica. Eu traria com um pé nas costas esse leão de Coliseu
a bico de pena na página 15, faminto à espera dos cristãos, se soubesse
ser do agrado o sacrifício aos seus olhos campesinos. Nua bárbara da
infância, herança que persiste madureza afora, mulher que a bem dizer
nunca existiu em carne e osso. Ainda assim há nos desenhos um não sei
quê da sua íris, que decretei acastanhada porque castanhos são os olhos
da maioria das musas.
Desse jeito sucedeu no silêncio do quarto de hóspedes, pois é hóspede
afinal o que continuo sendo por mais que os anos passem, nessa casa
eternamente de outros donos. A sala de jantar, o living, os outros
quartos e cômodos, com seus tetos provisórios de alicerces vacilantes,
em nada confortam nem abrigam como os lares de verdade, plenos de
gentes e vozes. Esse meu pequeno quarto é espaço de transição,
vestíbulo para o castelo onde reina o imperecível desde que o mundo é
mundo. Onde é o lugar de bárbara, o anjo estranho a quem dei vida sem
que viva.
Que minhas pálpebras verguem ao peso de seu corpo jovem, que o sono
venha e me leve às histórias nunca lidas que não cabem em mil páginas
que sejam. E quanto a você, livro dos muitos mistérios, fique sabendo
me darei por feliz se algum dia for capaz de decifrar-lhe a orelha.
(16 de fevereiro/2008)
CooJornal no 568
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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