Marcelo
Sguassábia
CORAÇÃO DE ESTUDANTE
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Assistindo ao
primeiro capítulo de “Queridos Amigos”, vi alguns dos amigos queridos
e outros nem tanto pularem do pântano mofado feito pipoca de
microondas. Uma espécie de “efeito cebola”, onde uma camada de
recordação que se descasca vai revelando outra, mais profunda, que
parecia perdida mas que estava lá quieta, pronta para fazer chorar
caso mexesse com ela.
Pode ser que a série se arraste daqui pra frente, e é natural que seja
assim, pois se arrastaram sem arroubos de entusiasmo ou idolatria ao
que quer que fosse aqueles anos perdidos. Não perdidos na memória, mas
como valor utilitário mesmo. Foram anos que começavam e agonizavam
sufocados por sua névoa paralisante, burocraticamente vividos, sem
sentido prático nem perspectiva histórica. Um tempo sem ídolos,
bandeiras e gritos de guerra, que mesmo quixotescos sempre fazem falta
e dão à década alguma personalidade.
Bateu latejando o sentimento do tempo perdido, o vazio de termos nos
esquecido num lado B qualquer de um disco do Lulu Santos. Girando,
girando até agora no prato do 3 em 1 e deixando a todos tontos, sem
achar rumo de vida. Éramos os que viam “Viva o MR-8” pichado nas
paredes dos diretórios acadêmicos mas não sabíamos direito do que se
tratava, geração que não disse a que veio nem muito menos foi
informada para onde era levada. Liquidificávamos o Trem Azul da Elis,
a tanga do Gabeira, o irmão do Henfil, o enterro da ditadura e a
bisonha esperança na nova república, o João que preferia cheiro de
cavalo ao do povo, o Sarney e seus fiscais.
Entrou o comercial, fechei os olhos e prossegui capinando o mato seco
entre os miolos pra tirar dali um ou outro fruto que valesse uma
recordação, que merecesse ser guardado no meio daquele torvelinho de
fatos estéreis. Pois o que fazíamos, eu e todo mundo parido nas barbas
de 64, era estarmos até tarde da noite em nossos quartos, legiões do
Legião, paralamas de sucessos duradouros ou esquecíveis. Sucessos dos
outros, nunca nossos. Víamos valores permanentes se descartalizarem,
os telefones de baquelite se plastificarem, as casas de nossos avós
virarem estacionamentos e os jardins das praças públicas serem tomados
por monóxido de carbono.
Observando o reencontro de amigos da série da Globo, me pergunto de
que no fim das contas adiantaria uma suposta reunião nossa, garotos de
21 em 1985. Vale a pena ver de novo? Não, não vale. Mais vale viver os
43 de agora, ainda que paire sobre nossas cabeças a ameaça de
derretimento das calotas polares e a catastrófica aproximação da
última profecia de Nostradamus. Não importa. Conta e muito a lucidez
de hoje, embora provavelmente mais da metade da fita já tenha corrido
e não haja possibilidade de rebobinamento.
Voltando aos muros pichados, havia aqueles que diziam “Tortura nunca
mais”. E repisar esse passado é deixar-se vencer pelo torturante
band-aid no calcanhar. Assim quis que saísse esse texto, escorreito e
com a falta de burilamento que acabou ficando. Crônica de um jato só,
vomitada na rebordosa de uma festa de estudante às vésperas da morte
do Tancredo.
(01 de março/2008)
CooJornal no 570
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com