Marcelo
Sguassábia
LÚCIA FOI PARA O CÉU
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Era uma vez a recatada Lúcia, que farta
de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco próximo, deu
consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre da carne e da
gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e
displicentemente. A chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros
mundos a percorrer como quisesse. Via-se agora como sonhava ver-se,
intercambiando entre as várias Lúcias dos dias felizes. Via-se Láctea
universo afora. Via-se as muitas que fora outrora. Mamava sôfrega o
leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá vou eu!
E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um
bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do
itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na
estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de
babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor
de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se
mutuamente.
Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada
em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento.
Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser
que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em
meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o
cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses
voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde
bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.
(08 de março/2008)
CooJornal no 571
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com