Marcelo
Sguassábia
CISMEI DE IR
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Encasquetei, parti pra cima de mim e já
fui logo ameaçando: eu vou. E quem sou eu pra discutir comigo? Acatei
obediente. Não é de hoje que me devo essa viagem. Mas quero ir sem
aviso, chegar de supetão é bom demais da conta. Pego a vida
acontecendo de rédea frouxa, no passo lento, sem nada arrumadinho
aguardando chegada.
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A linha da vida na mão do negro Milton aponta a vereda pra que se
chegue a Minas são e salvo, assobiando em lombo de pangaré. Tia Júlia
espera com o doce no tacho, mexendo em fogo brando o que éramos.
Lá na cidade, cervejas no copo espumam sobre a mesa meio bamba. Os
Guedes e os Borges todos, o clube em sua esquina repleto de Brants,
Bastos e Tisos, que vão parindo Nascimentos tantos pela tarde afora.
Três Pontas. O sol na cabeça. Minas é dura, de pedra e de ferro, não
poupa ninguém do suor na ladeira.
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São sete flautas cansadas a saudar nossa chegada. Tia Júlia espalha o
sal da terra na massa do pão de queijo. Há um ritmo de monjolo que
orquestra tudo ao redor, do cuco ao crepitar da lenha.
Milton, braços cruzados, monta sentinela na plataforma da estação que
é a vida do seu lugar. Beto, ao sol de primavera, passa a mão pelos
cabelos, ri pra dentro, fala baixo. Receia olhar nos olhos, se basta
consigo mesmo.
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Que notícias me dão dos amigos? Antonia casou. Gersinho tá pra
Belzonte. Os outros sempre por aqui mesmo, do jeito que você deixou
quando se foi sem mais aquela. Tudo com filho criado, agora. Mas
magoados contigo. Quando você foi embora, fez-se noite no viver. Eita
que doeu em todos não te ver jamais. Montanha pra riba, montanha pra
baixo e nada de te encontrar. Se achegue que o café saiu agorinha. E
não se moleste aí, conferindo as horas como se houvesse precisão de
não atrasar compromisso. O tempo aqui, é bom que te lembre, é trem que
custa pra passar.
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O ciclo do ouro no nome de Minas. Depois do almoço, no quarto da tia,
a rede que range. A sesta da velha, a cesta de ovos, pilão pilando
fubá e o sol a pino nos costados lá de fora. Libertas Quae Sera Tamen,
mineira, liberta esse viço que não cansa os olhos nem descansa o
apetite. Me diz inconfidências, mineira, que me deixem vermelho que
nem goiabada. Que nem o triângulo da bandeira. Que nem a chita do teu
vestido.
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Depois do amor, a fome. O doce escorre da colher aos teus mamilos.
Amor de Minas é bom e manso. Espreguiçado assim, desse modo
esparramado em linho branco. É pena que logo tenha que dar nos cascos,
antes que chegue o teu dono oficial, ameaçando de morte essa vida que
ganho nos teus braços lisos. No inverno te proteger, de manhã sair pra
pescar. Verde lugar, paisagem desse caminhar.
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Ixe, nem te conto o que acontece. Senta pra não cair de costas.
Jaca madura, quase passada, pedindo corte. A seiva adocicada esculpe
no ar o que Minas tem de muito mole, que a bem dizer é quase tudo no
embalar das indolências. Sem pressa, como convém, no toco fiz singrar
o canivete, era pequeno mas lembro, faz tantos anos e foi ontem, sou
capaz de te jurar.
- Minino, vem rapidim pa drento que tá sereno.
Frases que o vento vem às vezes me lembrar. Tralhas entulhadas, secos
e molhados, Minas em geral.
(15 de março/2008)
CooJornal no 572
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com