Marcelo
Sguassábia
QUERO SÓ VER
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Abstract Eye - Richard Pousette-Dart
Quero ver seus olhos não abrirem para certas coisas que é impossível
não enxergar.
Quero ver seu estômago não revirar com outras tantas que não precisam
nem merecem existir.
Quero ver sua espinha não arrepiar ao passar pelas quarenta mil tumbas
das três mil e quinhentas abadias, tentando imaginar o que aqueles
seres de mármore fizeram quando o sangue ainda corria em suas veias.
Quero ver as ondas alfa, beta e teta do seu cérebro detendo a queda
das folhas no outono e as lágrimas no adeus final ao ente querido.
Quero ver seu cotovelo contornar a dor, levantar a poeira e dar a
volta por cima.
Quero ver você cruzar os braços e largar do jeito que está, a léguas
da conclusão. Quero ver você ganhar peso sem culpa e perder o peso que
tiver na consciência.
Quero ver você dar de ombros para os que não admitem deixar pra
depois. Quero ver você sentir na pele o que os livros narram, as
videntes predizem, os quadros mostram, os conselhos advertem e os
candidatos prometem.
Quero ver sua boca maldizendo a blasfêmia, difamando a calúnia e
achincalhando os que lutam com afinco para fazer do mundo um campo
minado.
Quero ver o tremor das suas mãos ao se colocarem em posição de prece,
clamando para que a ira divina caia sobre a máquina que desemprega o
homem e reduz o indivíduo a um feixe de estatísticas.
Quero ver muitas bolhas nos seus pés, contanto que a caminhada seja em
busca dos seus sonhos. Quero ver muitos calos findo o dia de trabalho,
desde que o esforço não signifique sacrifício e traga a merecida
recompensa.
Quero ver seu coração disparar não só nas formaturas, casamentos e
funerais, mas ao dar com a formiga carregando a folha, a casaca puída
do porteiro da boate, o sol fazendo seu protocolar giro pela crosta
numa quinta-feira qualquer de um lugar não pitoresco. Quero ver você
gostar da vida acontecendo sem nada de importante a acontecer.
Quero ver você arregalar os olhos na falta de graça da lida aldeã, na
frieza dos ferros-velhos, nas pastas pretas e idênticas dos corretores
de seguros, no efeito sonífero dos serviços de aviso dos shopping
centers.
Quero ver você perder o fôlego ao encontrar-se, ter todos os motivos
para mostrar os dentes e nenhum para morder a língua. Quero ver você
dar as costas a quem lhe fechar as portas e ficar de joelhos diante
das coisas mais simples. Como um menino desenhando o pai com giz de
cera.
Quero ver que nariz poderá continuar empinado com o raquitismo dos
etíopes e a extinção dos coalas. Quero ver que queixo conseguirá não
cair ante o reencontro dos amantes exilados, sob a mais estonteante
das auroras boreais. Quero ver você se orgulhar da raça humana pelo
que ela tem de sobre-humano.
Quero ver você tendo pulso para atirar longe o relógio e resolver
empurrar com a barriga. Quero que você ganhe a convicção de que mais
vale perder a hora que os cabelos.
Quero ver você respirando fundo no fim da fila, no meio do trânsito,
no começo do expediente.
Quero ver você gozar de si mesmo quando falhar na cama e ter a coragem
de dizer que isso sempre lhe aconteceu antes.
(29 de março/2008)
CooJornal no 574
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com