Marcelo
Sguassábia
OBRIGADO, MAMÃE
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A natureza sempre mostrou-se pródiga ao nos brindar com plantas para
todas ou quase todas as moléstias, de quadros irreversíveis de
Parkinson a furúnculos de ocasião. Assim foi durante séculos com o chá
de couve-manteiga, que não obstante o nome frágil da verdura era capaz
de dinamitar em minutos a mais titânica pedra no rim. O mesmo se pode
dizer do alecrim, célebre por sua propriedade de deter a leucemia em
estágio avançado, pelo menos entre os eunucos da Ásia Setentrional,
que em número de 47 serviram como grupo de controle nos estudos
levados a efeito pelo “The New England Journal of Medicine”. Há que se
citar também o alívio que o reino das ervas oferecia ao masturbador
contumaz, que em 97,3% dos casos relatados lograva aplacar o vício
solitário com a ingestão diária de três cápsulas de semente moída de
tangerina anã, até então empregada com sucesso enquanto antídoto e
estancador do priapismo provocado pela catuaba.
Mas os tempos são outros, e a camomila, a hortelã, a erva-cidreira, o
boldo, o sapotizinho do mato e a babosa espinhuda já não abundam nos
quintais das tias velhas. Por seu turno, os congêneres de saquinho,
vendidos nos supermercados, são sabidamente de efeito retardado e
duvidoso. E confirmando Lavoisier em sua máxima de que “na natureza
nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, o fato é que ela
hoje nos oferece substitutos tão ou mais eficazes em sua ação curativa
e profilática. Como o espaço de que disponho e a paciência do leitor
não me permitem citá-los todos, aí vão alguns que me acorrem de
momento para ilustrar minha tese.
O chá de pneu em lascas, que para gagueira é tiro e queda – seja ela
de manifestação congênita, hereditária, patológica ou psicossomática,
entre as pessoas que cantam e as que mal sabem assoviar. Encontráveis
facilmente às margens de qualquer banhado ou ribeirão, sua
contundência terapêutica observa-se também na forma de ungüentos e
emplastros, contanto que associados à ingestão intermitente de papéis
de bala Juquinha. Temos ainda a infusão tríplice de tocos de cigarro,
pet Bacana 2 litros e preservativos usados, largamente prescrita pelos
plantonistas do SUS de Xique-Xique para as luxações de cadeirantes,
sendo opcionalmente aplicada como escalda-pés. Os florais formulados
com extrato concentrado de níquel-cádmio, oriundo de baterias as mais
diversas, cuja seiva escorre a se perder aos pés das árvores, sem que
o homem saiba aproveitá-la devidamente para a cura de “n” gêneros de
enfermidades. O xarope caseiro de isopor e mercúrio, que muitos
erroneamente renegam a crendice ou mera simpatia, contradizendo
centenas de relatos avalizados por baluartes da ciência que indicam
seu uso nos casos de astigmatismo e transtorno bi-polar. A garrafada
feita com folhas de papel alumínio e cartucho de impressora, também
chamada de “Levanta-Defunto”, responsável pela reabilitação de
inúmeros casamentos no interior do Piauí. Enfim, é infinita a
generosidade de mamãe natureza a nos presentear, em quantidades cada
vez maiores, com estes e tantos outros santos remédios. Bálsamos
mágicos a que todos devemos ser gratos e saber retribuir, repondo em
dobro aquilo que extraímos.
(05 de abril/2008)
CooJornal no 575
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com