É na paz dos que não têm pressa nem compromisso que
não se possa adiar que Irmã Helena atravessa, pontualmente, o
corredor central que liga os dormitórios das noviças à capela dos
Aflitos. Hoje tem o cenho franzido e o andar acelerado. Passa um
pouco das quatro e meia, hora limite para que se recolha o latão
de leite, a lenha recém-cortada e se coe o primeiro café do dia.
Madre, valha-me, atrasei esse tantinho porque aumentei as
intenções da reza. Deus Pai esteja comigo. Não se atribule o teu
coração, mantenha tua quietude ainda que tudo conspire contra o
que intentas.
Abre o breviário com a foto e uma pequena biografia da beata
Sofia, que deixou este vale de lágrimas com fama de santidade. O
grande vitrô com a cortina semi-cerrada deixa ver as sepulturas
simples das antigas Superioras da Ordem, cobertas de musgo no
jardim do claustro. Ela inspira longamente, apesar do aperto do
colarinho ela puxa fundo o ar da manhã. O colarinho é duro e é
quase irresistível compará-lo a uma coleira, não por forçosamente
a prender ali, já que viera por vontade própria; mas de qualquer
forma o colarinho era um anel, na aparência e no sentido, a
lembrar-lhe os votos de obediência, pobreza e castidade.
Junta as mãos observando o escorrer lento do café coado, ora para
que o mau pensamento seja varrido como varrido e encerado estará
sendo daqui a pouco o chão da capela pela Irmã Dalva. Que
cessem sobre teus filhos, Senhor, a sujeição do espírito pela
carne, a dominação da lascívia e do pecado, da luxúria e suas
ciladas, das tentações sensoriais que embotam o tino dos
irmãozinhos além-muros. Fora desta casa de vocação e recolhimento
há hordas de desgarrados, na busca vã do que lhes dê sossego e
satisfaça os ímpetos. Olhai especialmente pelos que sofrem, gente
nas filas para o que quer que seja ou que se necessite, gente
cumprindo aviso prévio à força, clamando bálsamo para suas chagas,
gente fazendo gente mesmo sem querer que gente seja concebida. O
semblante do Senhor crucificado pouse sobre todos esses
desvalidos, é o que implora essa tua imperfeita e humilde serva.
Na grande mesa de carvalho uma pilha de hábitos sem mácula, seus e
de todas as demais irmãs, recende mais forte a sândalo agora,
nessa quietude que precede o amanhecer, trazendo vinte e quatro
horas iguais às últimas vinte e quatro horas, que nos últimos
vinte e quatro anos permanecem imutáveis como as palavras do Pai
Nosso, que assim há de ser recitado nos próximos vinte e quatro
séculos dos séculos, amém. Ontem, tirando a sobrancelha, deu com
três fiozinhos brancos.
Não vos preocupeis com o dia de amanhã. Ah, se todos soubessem do
rosário e seu poder imenso, agasalho que nunca desguarnece, ombro
que nunca há de faltar. Não pela vaidade que os fios brancos
incomodavam, mas pelo indício da aproximação do tempo em que faria
companhia às superioras sepultas, em que estaria também sob uma
laje rachada, debaixo de sol e chuva, a aguardar a ressurreição
dos mortos. Que esse momento tarde muito, te esconjuro. Mas seja
feita a Tua vontade, e não a minha.
O telefone, Deus Pai, a essa hora?
- Helena... Helena, é você?
O coração disparou, o café transbordou, a ligação caiu. Mas Irmã
Helena manteve a serenidade e de novo respirou fundo, apesar do
colarinho. O dia estava apenas começando.