Marcelo
Sguassábia
MIM TARZAN, YOU TUBE
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Definitivamente, Tarzan não estava em seus melhores dias. Chegou à
repartição meia hora depois do cacique, derrubou pó de guaraná na
camisa branca e, como se não bastasse, o programa travou no meio
da planilha. O relatório precisava estar pronto dali a duas luas,
no máximo.
Ficou olhando impotente para o mico computador, contando até 10
para não esmurrá-lo. Era todo de jacarandá, com uns detalhes em
peroba rosa. Talvez por isso desse pau o tempo todo. Comprado de
contrabando, veio escondido debaixo de um carregamento de mogno
vindo do Amapá.
O gabinete de Tarzan era no décimo oitavo andar da palmeira
imperial 15, Asa Sul de Bem-Te-Vi.
Lá vem ela: Jane. Aquilo não era uma mulher, era uma reserva
natural paradisíaca. Assim ficava difícil se concentrar no
trabalho. Funcionária nova, chegara ali transferida da Funai,
depois de ter servido oito anos na Sudam. Se aproxima insinuante e
pergunta qual o melhor caminho pra voltar pra casa.
Meu Santo, Daime forças pra resistir à tentação. Seria uma
inesquecível transa amazônica...
Tarzan explica que o caminho mais fácil é pegar o cipó 12, passar
três estações, fazer conexão com o cipó 35, saltar na Avenida
Vitória Régia e dali ir de canoa até sua oca.
Com vestido de chita essa Jane fica um arraso, ele pensa. Mas, se
abatesse a presa, teria que ser mais cauteloso do que com aquela
gata vestida de oncinha, que levou para o meio do mato na semana
passada. Por um descuido a conta do Moita’s Hot Night foi parar na
fatura do cartão de crédito. Pra explicar em casa não foi nada
fácil, o couro de jacaré comeu solto quando chegou na cabana.
A reunião com a diretoria foi demorada. Pauta do dia: Alternativas
para livrar a selva de pedra da extinção, detendo a devastação da
cidade pela floresta e preservando os mananciais de CO2. O
crescimento desordenado da mata nativa vem engolindo
impiedosamente as chaminés das fábricas. Se não fizermos alguma
coisa agora, não vai sobrar uma fumacinha para as próximas
gerações, argumentava colérico o gerente de assuntos
institucionais. E aí a discussão se estendeu com todo aquele papo
de sustentabilidade, de responsabilidade ambiental, que a empresa
precisa se mobilizar pra calar a imprensa e aplacar os ânimos da
opinião pública, etc. Ao final, tudo combinado e nada resolvido.
Saiu esgotado do blá-blá-blá e parou no bar para um Gin das
selvas. Duplo.
De volta à cabana, acessou amazon.com e encomendou o último
lançamento do Ramos de Carvalho, que o Campos Nogueira havia
recomendado para seu primo, Pinheiro da Serra. Aproveitou e
comprou também um ensaio do Florestan Fernandes e um CD da Vanessa
da Mata.
Já na rede, pegando no sono, o celular toca. Era o Aníbal pedindo
que lhe quebrasse um galho. E toca o tonto do Tarzan a se
embrenhar floresta a dentro, com a moto-serra nas costas, pra
resolver o problema do amigo.
Nisso já clareava o dia. Parou na banca de jornais, comprou a “A
Voz Nativa” e leu a reportagem sobre um projeto voluntário de
crianças que derrubavam árvores para transformar em roçados de
arroz e soja. A matéria também falava de um grupo de adolescentes
que drenou um rio e seus peixes para enchê-lo de asfalto. As fotos
mostravam as mães dos meninos chorando de emoção, o jornal
elogiava o exemplo de cidadania, um representante da ONU veio
condecorar a escola e os alunos pelo feito inédito e inspirador.
Com os olhos marejados, dobrou o jornal e seguiu direto para a
repartição, exausto e sem banho tomado, mas com o gratificante
sentimento de que nem tudo estava perdido nesse mundo.